
Frequentemente o amor é apresentado como algo que pode ser encontrado, escolhido e consumido. Aplicativos prometem compatibilidade perfeita, redes sociais exibem relacionamentos idealizados e a publicidade sugere que a felicidade amorosa pode ser alcançada através da aquisição de produtos.
No Brasil, popularização do dia dos namorados esteve ligada a uma campanha publicitária criada pelo publicitário João Doria na década de 1940, com o objetivo de impulsionar as vendas do comércio em um período de baixo consumo. Esse aspecto histórico nos convida a uma reflexão: o que acontece quando uma experiência tão singular e subjetiva como o amor passa a ser atravessada pela lógica do mercado?
Psicanálise freudiana oferece importantes ferramentas para pensar essa questão. Em seus estudos sobre o narcisismo, Freud observou que o sujeito não ama apenas o outro por aquilo que ele é, mas também por aquilo que representa em sua vida psíquica. Em muitos casos, escolhemos nossos objetos amorosos porque eles encarnam aspectos de nós mesmos, aspectos que gostaríamos de ser ou que perdemos ao longo do desenvolvimento.
No texto Sobre o Narcisismo (1914), Freud descreve o ideal de ego como uma instância psíquica formada a partir das exigências parentais, sociais e culturais internalizadas pelo sujeito. Freud observa que, durante a paixão, parte da libido investida no próprio ego é deslocada para o objeto amado, que passa a ser supervalorizado. O amado é colocado em uma posição privilegiada, como se possuísse qualidades excepcionais e estivesse acima de críticas ou limitações. Em certo sentido, o sujeito se submete ao objeto idealizado, atribuindo a ele um valor que muitas vezes não corresponde à realidade. Essa dinâmica ajuda a compreender por que tantas relações são acompanhadas por sofrimento. Muitas vezes não nos relacionamos com a pessoa real, mas com uma imagem construída a partir de nossos desejos inconscientes. Esperamos que o outro preencha faltas, cure feridas narcísicas ou realize expectativas que pertencem à nossa própria história psíquica. Quando a realidade inevitavelmente se impõe, surgem frustrações, decepções e conflitos.
Talvez o maior desafio do amor não seja encontrar alguém que corresponda ao nosso ideal, mas sustentar o encontro com um outro que é inevitavelmente diferente de nós. Um outro que possui desejos próprios, limitações, contradições e uma subjetividade que nunca poderá ser totalmente conhecida ou controlada.




