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A importância da fala em psicanálise na reabilitação de pessoas alcoólicas e sua similaridade com a fala em Alcoólicos Anônimos

Oct 3, 2025

Ana Lúcia Cavalcanti de Azevedo Silva

Psicoterapia
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Por que Alcoolismo e Psicanálise?

 

O alcoolismo é considerado um sintoma para a psicanálise. E essa espécie de sofrimento encontra alívio na expressão verbal do sujeito dentro de uma sala de A.A. (Alcoólicos Anônimos) similarmente a um paciente em processo de análise, dentro do setting analítico. É a partir dos relatos de experiências vividas em situações de embriaguez e mesmo de experiências já em abstinência, que o membro de A.A. poderá promover a sua recuperação do alcoolismo. Da mesma forma, o sujeito em análise poderá gerar melhores condições de instaurar laços sociais mais saudáveis: amar melhor, trabalhar melhor, relacionar-se melhor. E entenda-se por essas três propostas, não a chave da felicidade, mas a possibilidade de sustentar, de maneira consciente e mais robusta, as dores e alegrias do existir.

 

"Pode-se dizer que o objetivo de abstinência total é ousado, mas a maneira como é proposto é simples e atraente: o compromisso de se manter abstinente “só por hoje” é um lema utilizado pelos membros a fim de sempre se lembrarem que a conquista da abstinência e da sobriedade se dá a cada dia, ou seja, para eles, “vivendo um dia de cada vez”, os objetivos se tornam mais realistas e alcançáveis. A ideia de evitar o “primeiro gole” é constantemente reforçada, pois é considerada o desencadeante imediato da compulsão adictivo.” (FIGLIE; BORDIN; LARANJEIRA, 2010, p. 454)

 

A Fala e Sua Função Terapêutica

 

Se a busca do sujeito pela psicanálise é resultado de sofrimento, temos na doutrina freudiana um investimento na busca pela causa primária desse sofrimento a partir da tentativa de responder quais as nossas motivações, as causas mesmas de nossos atos; e como dizer essas causas utilizando a linguagem advinda do funcionamento de nossa vida psíquica.

Bem, “a voz do inconsciente é sutil, mas ela não descansa até ser ouvida! (Sigmund Freud). Isso significa que “o inconsciente não á acessível”! (Nasio, 1994) a não ser pela via da Consciência mas ali, na consciência, o inconsciente somente transita travestido, disfarçado de suas inúmeras formações.

 

E isto se dá por conta das inúmeras coisas – fatos e acontecimentos que se deram conosco, e que “esquecemos”, recalcamos, e que permanecem no inconsciente... portanto esses conteúdos precisam ser modificados para emergirem, para virem à tona. E, de fato emergem! Através dos sonhos contados durante as sessões de análise, através dos atos falhos (dizer uma coisa quando, na verdade, queria se dizer outra) através de piadas ou trocadilhos que surgem no meio de uma fala (que chamamos chistes) e, também, através dos sintomas!

 

Dá-se, então, o que Lacan (psicanalista francês -1901/ 1981) chamaria de “formações do inconsciente” e, essas formações permitem que o que foi recalcado retorne. De que forma? Atravessando o consciente e dando forma ao que estava oculto ou não dito!

 

A Dor é Inevitável, mas o Sofrimento é Opcional

 

Se o mergulho no processo de análise expõe o sujeito às suas vulnerabilidades – se faz emergir sua história mais longínqua, enterrada por camadas de esquecimento compulsório – é também nesse mergulho que se revelará a face obscura da Dor! Porém, como uma chance de ouro, a Dor convida a um olhar totalmente diferente sobre o próprio sofrimento: falando de si, olhando para si, encarando o seu desejo, o sujeito, agora, tem o inconsciente como aliado.

 

O sofrimento acomete a todos nós em todas as épocas, seja qual for o seu atributo. Historicamente, nomeado de diversas maneiras, o sofrimento comparece sempre. Como a histórica “Neurose de Caráter”, na qual o alcoolismo, por exemplo, encaixou-se e permaneceu por um bom tempo nesse enquadramento. À época, em tese, a definição da neurose incluía em seu campo de domínio as doenças para as quais a medicina anatomopatológica não encontrava nenhuma explicação.

 

É no período que compreende 1890 a 1930, que Freud, a partir dos seus atendimentos, traz à luz a ideia de sofrimento psíquico. As histórias e questões desses pacientes não tinham como ser apresentadas ao mundo a não ser pelas dores e anomalias plasmadas em seus próprios corpos e discursos. A tentativa de Freud e Breuer à época, de dar solução a estes sintomas através da prática da hipnose, mostrou-se, num determinado momento, ineficaz. Atendendo a um apelo de uma de suas pacientes para que “a deixasse falar”, Freud inaugura uma escuta que revela o sofrimento além do problema físico, limitado ao corpo das histéricas, e abre as portas para dar ouvidos e passagem para a fala a um sofrimento que remete à subjetividade. “Isto o leva a estabelecer, em 1904, a associação livre como a regra principal da psicanálise.

 

Quando falamos, portanto, dessas formas de sofrimento mental – o mal-estar nomeado (Freud, 1929-30/1996), podemos perceber seu caráter universal. É alguma coisa que diz sobre todos nós.

 

Porém, podemos perguntar: o sofrimento mental se traduz em doença mental? Temos aqui um ponto interessante que traz a questão da relação entre sofrimento psíquico e sintoma.

 

"No início de suas elaborações acerca do que afetava as histéricas, fortemente influenciado por suas experiências junto a Charcot e seu trabalho conjunto com Breuer, Freud defende que a histeria é o produto de um conflito psíquico gerado por um evento traumático que deixou marcas, mas que não é lembrado no estado de vigília.” (MAIA; MEDEIROS; FONTES, 2012, p,45)

 

Na articulação da palavra (ao falar) é possível perceber alguma coisa que se impõe para o sujeito, que o submete no sentido de um impulso de fazere que soa inadequado; ou, ainda, alguma coisa que impede esse sujeito de realizar algo: ele não se permite fazer o que precisa em determinados contextos de sua vida. A função dessa linguagem, o sofrimento narrado, importa para que se defina a estrutura da linguagem própria dos sintomas. Nessa relação de fala – direcionada ao analista – retoma e recorda-se a própria história. Isto se dá de uma maneira muito singular, de caráter único de cada sujeito. Somente assim consegue dizer de maneira peculiar o que não consegue dizer efetivamente. O sujeito recordará, vai repetir e elaborar, até o momento em que se apropriará da verdade de seu desejo e da capacidade de exprimi-lo não mais necessitando desse ou daquele sintoma para servir-lhe de intérprete.

 

Mas, voltando à dinâmica de A.A. Numa reunião de AA o compartilhamento (a fala do sujeito) é ouvido pela audiência silenciosa. Os membros, de fato, não sabem o que ouvirão e, via de regra, não conhecem o orador. A vida particular desse membro não é o foco de interesse dos outros membros, o que não impede a profunda e honesta comunicação entre eles. Pode parecer, mas, em se tratando de psicanálise, traçando um termo de comparação, “Não se trata de uma relação onde as duas pessoas interagem a partir do mesmo plano, simetricamente”. (Maurano, 2003, p. 29). Muito embora o discurso proferido pelo sujeito aos membros presentes na reunião de A.A. traga relatos de acontecimentos correntes e cotidianos, é menos o que acontece no dia a dia e mais a motivação desses acontecimentos o que interessará ao grupo ali reunido. Não há intenção de analisar propriamente ou mesmo entender o que é falado, e muito menos de julgar. Como uma paisagem que se descortina através da janela de um trem, o discurso do membro de A.A. desenrola-se independentemente do sentido que se pretenda imprimir a esse discurso. O orador repetirá indefinidamente, quantas vezes forem necessárias, a sua história com suas passagens mais traumáticas. A audiência, sempre silenciosa, acatará essa fala de repetição interminável e, não raro, cada participante poderá tomá-la como ferramenta para interpretar sua própria história. Seja a partir de alguma coisa que chamará a sua atenção no decorrer dos depoimentos – uma imagem ou uma palavra, cujo significado terá correspondência com o seu relato – o ouvinte poderá estabelecer uma identificação[1] com a história contada. Entretanto, ao utiliza-la como instrumento de interpretação de sua própria história, o ouvinte não responde ao orador de um lugar de conhecimento, nem lhe oferece solução ou uma saída.

 

Espaços Distintos, Porém, Complementares

 

Acometido da compulsão pela bebida, o alcoólico não poderia estar mais distante da verdade de seus desejos. Mesmo declarando que essa verdade é o ato de beber em paz e para sempre e ainda que engendrando mil maneiras de (beber para)esquecer-se dela. Também, não poderia estar mais familiarizado com a criação de mundos à parte, com a construção de realidades mascaradas, acomodadas ao seu bel prazer dentro de um cenário confortável, onde não se conta com o real. Apenas a fantasia predomina.

 

Não raro observa-se que ocorrem, a partir dos depoimentos proferidos numa renião de A.A., um fenômeno muito parecido com o que ocorre com o sujeito em análise: ao sentar-se para relatar sua experiência aos companheiros, o alcoólico em recuperação buscará minimizar o conflito entre reconhecer e negar ao mesmo tempo, o que de doloroso sua história de vida traz. Existe, ainda, uma sobre determinação inconsciente (uma predimonância do inconsciente) no que se diz desse lugar pois, submerso em anos de bebedeira, o sujeito encontra-se influenciado por uma linguagem que não é a sua própria (pré-fabricada). Entende-se que a fala que mais faz sentido é aquela justamente desprovida deste – também conhecida no jargão de A.A. como a linguagem do coração, e na psicanálise conhecemos como a fala plena... que abre caminho para o insconciente. Em análise, essa fala em livre associação e menos construída, dará lugar ao sujeito, agora começando o caminho da apropriação de si mesmo.

 

Levando esse exemplo, ainda, para a psicanálise, podemos buscar nos Escritos de Lacan uma articulação:

O analista, portanto, não pode, sem perigo, acuar o sujeito na intimidade de seu gesto, ou mesmo de sua estática, a não ser para reintegrá-los como partes mudas em seu discurso narcísico, o que foi notado de maneira muito sensível até por jovens praticantes. (LACAN,1953, p.253)

 

E mais adiante, com relação às certezas do sujeito:

 

Muito pelo contrário, a arte do analista deve consistir em suspender as certezas do sujeito até que se consumem suas últimas miragens. E é no discurso que deve escandir-se a resolução delas. (LACAN,1953, p.253)

 

Com isso pudemos articular, minimamente, sob o ponto de vista da psicanálise, os efeitos produzidos pelo ato de fala direcionada ao ouvinte, em dois ambientes discursivos distintos, apontando para a importância da linguagem para a emergência do inconsciente.

 

Além disso, trazer aos estudiosos da matéria, aos interessados em iniciar um processo de análise bem como ao público leigo, informação sobre a dinâmica de funcionamento de um grupo de A.A., irmandade norteada por um programa de doze passos para reformulação de vida e tratamento do alcoolismo – que, assim como a psicanálise, porém sem substituí la - lança mão do discurso do sujeito que traz consigo uma demanda, um sofrimento e, mais especificamente, lançar um alerta para que possamos abrir a mente para o reconhecimento desse espaço de “cura”, traduzida, segundo Freud, como “a reorganização do Eu”.

 

O trajeto é longo tanto para o alcoólico em recuperação quanto para o sujeito em processo de análise; o caminho para o reconhecimento da raiz de seu desejo e aceitação do que se é, deverá passar pelos vários processos da fala e suas constrtuções de linguagem.

 

Existe um fenômeno interessante em A.A. com a continuidade do processo de recuperação e a frequência de reuniões, o alcoólico agora mais lúcido – e mais habituado a fazer os relatos pessoais dentro da sala – percebe que “ele não era quem pensava ser”, “que inventava histórias sobre si mesmo para impressionar e ser aceito pelos outros”. Percebe, ainda “o autoengano e a auto destruição que promovia em sua vida”, chegando à conclusão que estava matando a pessoa errada! Esta frase é um dos inúmeros jargões que compõem o que se denomina ser a “sabedoria de A.A.”.

 

É muito claro também, o processo de associação livre que se apresenta numa reunião de A.A. análogo ao processo de associação livre nas sessões de análise. Prova disso é a fala clássica que o membro profere ao deixar o seu lugar de depoente na reunião:

 

“Não era nada disso que eu queriadizer!”

Mas era exatamente o que precisava ser dito.

 

Concluindo

 

No tratamento do alcoolismo, oferecido em particular na irmandade de doze passos denominada Alcóolicos Anônimos, encontramos a fala do alcoolista como o ponto principal para o caminho de sua cura. De modo similar, como sabemos, a fala do paciente é o recurso de que o psicanalista lança mão para iniciar e dar prosseguimento ao tratamento do sujeito em sofrimento.

 

É inconteste, portanto, a importância da psicanálise não somente fazendo laço com várias disciplinas, mas também na área específica, da recuperação de alcoólicos. A fala em análise, sem substituir a frequência tão necessária em uma sala de Alcoólicos Anônimos, traz um desvendamento do sujeito em níveis bastante profundos. Essa “casadinha” programa de recuperação em A.A. + tratamento psicanalítico” vem como reforço para a reabilitação do alcoólico que se propõe a manter-se sóbrio.

 

De onde se conclui que a psicanálise é um instrumento efetivo e indispensável para o tratamento do alcoolismo e outras adicções.

 

[1] Na linguagem de A.A, o termo refere-se a uma familiaridade, um “me vi te vendo” que acontece dentro das reuniões.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

FIGLIE, B. N.; BORDIN, S.; LARANJEIRA, R. (Org.) Aconselhamento em dependência química. 2. ed. São Paulo: Roca, 2010.

GARCIA-ROZA, L. F. Freud e o inconsciente. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

MAURANO, D. Para que serve a psicanálise? Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

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