
A dez dias do Dia Mundial da Saúde Mental, vale a pena parar um momento numa palavra que se tornou onipresente nas redes sociais e, por isso mesmo, perdeu boa parte do seu significado original: autocuidado.
Hoje, basta abrir qualquer rede social para encontrar o termo associado a uma rotina de skincare, um chá numa xícara bonita ou um dia de folga no spa. Não há nada de errado nesses momentos — eles têm valor. O problema é que, ao reduzir autocuidado a consumo e estética, esvaziamos um conceito que, na psicologia, nasceu para algo muito mais estrutural: a capacidade de reconhecer as próprias necessidades e agir sobre elas antes que o corpo e a mente precisem adoecer para serem ouvidos.
O que autocuidado não é
Autocuidado não é fuga. Comprar algo, maratonar uma série ou tirar uma selfie "me cuidando" pode até aliviar momentaneamente, mas não substitui o trabalho mais silencioso — e menos fotogênico — de identificar o que realmente está pesando.
Também não é positividade tóxica. Dizer a si mesma "só preciso pensar positivo" quando o corpo está dando sinais de esgotamento não é cuidado, é supressão. E supressão emocional, no médio prazo, costuma cobrar a conta em forma de ansiedade, insônia ou irritabilidade.
E, principalmente, autocuidado não é individual no sentido de "dar conta sozinha". Pedir ajuda, dizer não, delegar, procurar terapia — tudo isso também é autocuidado, talvez o mais importante de todos.
O que a psicologia realmente quer dizer com isso
Clinicamente, autocuidado está ligado à autorregulação: a capacidade de perceber um estado interno de sobrecarga e responder a ele de forma ativa, em vez de empurrar o cansaço para depois indefinidamente. Alguns pilares costumam aparecer com frequência na prática clínica:
- Reconhecimento de limites — saber até onde você pode ir sem se esgotar, e respeitar esse limite mesmo quando é desconfortável dizer não
- Regulação do sono e do corpo — porque nenhuma estratégia emocional funciona bem sobre uma base de exaustão física
- Permissão para sentir — dar espaço para emoções difíceis em vez de reprimi-las ou mascará-las com produtividade
- Pedir apoio — reconhecer que buscar ajuda profissional, ou simplesmente conversar com alguém, é parte do cuidado, não falha dele
- Rotina com significado — pequenas estruturas diárias que devolvem sensação de previsibilidade em momentos de instabilidade emocional
Nenhum desses pontos cabe numa foto de rede social. E é exatamente por isso que o autocuidado real costuma ser menos visível — e mais eficaz — do que o autocuidado performático.
Um convite para os próximos dez dias
Com o Dia Mundial da Saúde Mental se aproximando, talvez valha menos a pena procurar mais uma dica de bem-estar e mais fazer uma pergunta simples e honesta: o que, na sua rotina atual, está pedindo atenção e sendo sistematicamente adiado?
Não precisa ter resposta pronta. Só o ato de se perguntar isso com sinceridade já é, por definição, autocuidado — o de verdade, aquele que começa muito antes de qualquer produto ou rotina perfeita, e que, no fim, é sobre uma coisa só: parar de tratar a si mesma como a última prioridade da própria vida.
por Nilcimary Romera · Psicóloga
Quem sou eu?

Maria Eduarda Chaves Siqueira
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Sou psicóloga clínica, com abordagem em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Atendo pessoas que enfrentam dificuldades emocionais como ansiedade, estresse, insegurança, baixa autoestima e desafios nos relacionamentos. Sou pós-graduada em Transtornos do Desenvolvimento e Análise do Comportamento. Meu trabalho é voltado à promoção da saúde emocional, ao autoconhecimento e ao desenvolvimento de estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.
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