
Excesso de diagnósticos em saúde mental: quando o rótulo vem antes da escuta
Por que “tudo virou transtorno”, os riscos da medicalização e como buscar uma avaliação responsável e segura.
Jan 30, 2026
Robson Magalhaes Guimaraes
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Excesso de diagnósticos em saúde mental: quando o rótulo vem antes da escuta
É compreensível buscar um nome para o que a gente sente. Um diagnóstico pode trazer alívio, explicação e caminho de tratamento. O problema é quando o “nome” vira pressa: quando a vida vira transtorno, quando um questionário vira sentença, ou quando o rótulo chega antes de uma avaliação cuidadosa.
Aqui a proposta não é “contra diagnóstico”. É a favor de diagnóstico bem feito — porque tanto o sobrediagnóstico quanto a subdiagnose podem machucar.
O que significa “excesso de diagnósticos”?
Em saúde, “sobrediagnóstico” não é a mesma coisa que “erro simples”. De modo geral, é quando uma condição é identificada de um jeito que não traria benefício real para a pessoa — e pode gerar danos (preocupação, estigma, tratamentos desnecessários, custos e tempo) .
Na saúde mental, isso fica ainda mais delicado porque emoções e sintomas existem em um contexto: luto, estresse, crise financeira, burnout, conflitos, traumas. Um artigo brasileiro discute justamente esse risco de medicalizar o sofrimento quando a leitura da experiência humana fica reduzida a categorias diagnósticas sem considerar história e contexto .
Por que parece que “todo mundo tem um transtorno”?
Alguns fatores aparecem com frequência nas discussões científicas:
1) Triagens virando diagnóstico
Questionários são úteis para levantar hipótese, mas podem dar muitos falsos positivos dependendo de como são usados. Em 2025, uma diretriz canadense recomendou não fazer triagem universal para depressão em adultos com questionários, porque a evidência de benefício é fraca e há risco de identificar “casos” que não se traduzem em melhora real (além de custo e sobrecarga do sistema) .
2) Diagnósticos “rápidos” e sem diferencial
Uma revisão sobre erro diagnóstico em saúde mental chama atenção para taxas relevantes de diagnósticos imprecisos em alguns contextos e para o quanto isso pode afetar tratamento e trajetória do paciente .
3) Linguagem das redes: sintoma vira identidade
É útil normalizar falar de saúde mental — mas é perigoso transformar sintomas comuns (cansaço, distração, timidez, tristeza) em certeza diagnóstica. Informação sem avaliação vira “autolaudo”.
4) Debate real: há lugares com excesso e lugares com falta
O mesmo transtorno pode estar subdiagnosticado em populações com menos acesso e, ao mesmo tempo, ser superidentificado em contextos de avaliação apressada. Essa “mistura” é comum na literatura sobre sobrediagnóstico.
Exemplo importante: TDAH e a discussão sobre sobrediagnóstico
No TDAH, existe um debate sério. Uma revisão sistemática (tipo “mapeamento”) encontrou evidência convincente de sobrediagnóstico e overtreatment em crianças e adolescentes em alguns cenários — especialmente quando critérios não são seguidos com rigor e quando casos leves recebem rótulo e tratamento sem avaliação ampla de benefícios e riscos .
Ao mesmo tempo, outras revisões discutem que aumento de diagnósticos pode refletir maior reconhecimento e mudança de acesso — ou seja: não dá para resumir em “é tudo moda”. A saída responsável é sempre a mesma: avaliação clínica completa, com critérios e contexto .
“O DSM está inflando tudo?”
Há críticas sobre “inflação diagnóstica”, mas um trabalho de síntese sugere que não dá para dizer, de forma geral, que os critérios ficaram universalmente mais frouxos de DSM-III para DSM-5 — o cenário é mais nuanceado (alguns quadros expandiram, outros não) . Na prática, o risco maior costuma estar menos no manual em si e mais em como ele é usado: sem entrevista clínica, sem critérios completos, sem diferencial, sem avaliação de prejuízo funcional.
O que um diagnóstico bem feito precisa ter (sem complicar)
- Tempo e padrão: isso é persistente? acontece em vários contextos?
- Intensidade e prejuízo: isso atrapalha sua vida de verdade (trabalho, estudo, relações, autocuidado)?
- Contexto: o que aconteceu antes? luto, sobrecarga, trauma, privação de sono, uso de substâncias?
- Diagnóstico diferencial: pode ser outra coisa (ou várias coisas juntas)?
- Plano de cuidado: o “nome” faz sentido porque orienta tratamento e alivia sofrimento, não só porque “explica”.
5 orientações práticas seguras (higiene diagnóstica)
- Procure avaliação com entrevista clínica e critérios claros. Pergunte como o profissional chegou à hipótese.
- Considere o contexto e outras causas. Sono, estresse crônico, luto, substâncias, problemas clínicos podem imitar sintomas psíquicos.
- Tratamento não é só medicamento. Para muitos quadros, psicoterapia baseada em evidências, hábitos de sono e manejo de estresse são parte importante do plano (e podem ser primeira linha, dependendo do caso). Diretrizes e revisões sobre triagem e diagnóstico reforçam que “identificar mais” não é automaticamente “cuidar melhor” .
Como buscar ajuda com segurança
Procure profissionais que:
- expliquem como avaliam (história, critérios, diferencial);
- construam um plano de cuidado (não só um rótulo);
- sejam transparentes sobre incertezas (“hipótese por enquanto”) e próximos passos.
Disclaimer
Este texto é psicoeducativo e não substitui avaliação profissional. Se você estiver em risco imediato (por exemplo, pensamentos de se machucar, desespero intenso, sensação de não conseguir se manter seguro), procure ajuda urgente (SAMU 192 / UPA / pronto-socorro). No Brasil, o CVV atende 24h pelo 188.
Referências
- Lang E, et al. Recommendation on screening adults for depression using questionnaires. CMAJ. 2025. (Recomendação contra triagem universal).
- Kazda L, et al. Overdiagnosis of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents: a systematic scoping review. JAMA Netw Open. 2021.
- Bradford A, et al. Diagnostic error in mental health: a review. BMJ Quality & Safety. 2024.
- Fabiano F, Haslam N. Diagnostic inflation in the DSM: a meta-analysis. Clinical Psychology Review. 2020.
- Degrave A, et al. A medicalização do sofrimento e o sobrediagnóstico na saúde mental. Saúde em Debate. 2025.
- Jenniskens K, et al. Overdiagnosis across medical disciplines: a scoping review. BMJ Open. 2017.
- Batstra L, Frances A. Defining and evaluating overdiagnosis in mental health. Psychopathology. 2019.
Psicólogo Robson Magalhães | CRP 04/82007
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Quem sou eu?

Larissa Sardi Fagiolo Montanher
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Olá! Me chamo Larissa, sou psicóloga clínica, graduada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) desde 2017. Minha atuação é fundamentada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), abordagem que busca compreender a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos, promovendo o autoconhecimento e o desenvolvimento de estratégias para lidar com os desafios da vida.
Realizo atendimentos psicológicos a crianças e adultos, nas modalidades presencial e on-line, oferecendo um espaço de escuta, acolhimento e cuidado, respeitando a individualidade e as necessidades de cada pessoa.
Acredito que cada pessoa carrega consigo uma história única, com sentimentos, experiências e desafios que merecem ser acolhidos com carinho e respeito. Por isso, meu objetivo é oferecer um espaço seguro, leve e livre de julgamentos, onde você possa se sentir à vontade para falar sobre o que sente e vivencia.
Na psicoterapia, caminhamos juntos em um processo de autoconhecimento, compreensão das emoções e desenvolvimento de recursos para lidar com as dificuldades do dia a dia. Cada etapa é conduzida com escuta sensível, empatia e respeito ao tempo e à individualidade de cada pessoa.
Você não precisa ter todas as respostas para começar. A terapia pode ser um espaço para se conhecer melhor, fortalecer-se emocionalmente e construir novas possibilidades para sua vida.
Valor da Sessão / Tempo de duração
R$ 40,00
/
40 minutos
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