
O sintoma do olhar: por que as redes sociais nos fazem sentir que estamos sempre vivendo menos que os outros.
Na cultura da exposição permanente, às vezes não sabemos mais se estamos vivendo… ou apenas nos imaginando sendo vistos.
Apr 10, 2026
Giovanna Santos Silva
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Às vezes eu penso que uma das experiências mais estranhas do nosso tempo é viver sendo observado.
Não estou falando de câmeras. Nem de vigilância. Estou falando de algo mais silencioso. Um olhar imaginário que parece acompanhar a gente o tempo todo.
Outro dia eu estava rolando o celular sem prestar muita atenção. Aquela coisa automática que a gente faz quando quer descansar a cabeça, mas acaba cansando ainda mais. Uma foto, outra foto, um vídeo curto, uma viagem, um casal sorrindo, alguém comemorando alguma conquista.
Nada muito diferente do que aparece todos os dias.
Mas em algum momento eu senti uma pequena contração no peito. Quase imperceptível. Aquela sensação incômoda de que a vida dos outros parecia estar acontecendo com mais intensidade do que a minha.
Fechei o aplicativo. Mas a sensação ficou.
Não era inveja exatamente. Também não era tristeza. Era mais como uma pergunta que surgia devagar: o que exatamente a gente está olhando quando olha para a vida dos outros?
A psicanálise sempre se interessou muito pelo olhar.
Desde cedo precisamos ser vistos para existir. O olhar de alguém sobre nós organiza algo dentro da gente. Uma criança não descobre quem é sozinha. Ela descobre quem é a partir de como é olhada, desejada, reconhecida.
Ser visto é uma experiência fundadora.
Talvez por isso as redes sociais tenham se tornado um lugar tão emocionalmente intenso.
Porque nelas o olhar nunca termina.
Sempre tem alguém olhando.
Sempre tem alguém mostrando.
Sempre tem alguém sendo visto.
E no meio disso tudo aparece uma sensação curiosa: começamos a viver como se existisse uma plateia invisível acompanhando a nossa vida.
Às vezes não estamos tristes com a nossa vida.
Estamos tristes com a versão da nossa vida que imaginamos que os outros estão vendo.
Como se, em algum lugar silencioso dentro de nós, existisse uma pergunta constante:
será que minha vida é interessante o suficiente?
É curioso pensar que as redes sociais parecem prometer conexão, mas muitas vezes entregam uma experiência muito solitária.
A gente vê muitas vidas… mas quase nunca vê a parte difícil delas.
Não vemos as dúvidas.
Não vemos o tédio.
Não vemos os dias em que nada acontece.
E então acontece uma distorção estranha: começamos a comparar a nossa vida inteira com recortes cuidadosamente escolhidos da vida dos outros.
A psicanálise tem uma forma muito simples de dizer algo que a cultura contemporânea parece esquecer: todo mundo tem faltas.
Todo mundo se sente perdido às vezes.
Todo mundo duvida de si mesmo em algum momento.
Todo mundo vive dias em que a vida parece menor do que gostaria.
Isso não é um erro da existência. Isso é parte da experiência humana.
Talvez o problema não seja exatamente olhar para a vida dos outros.
Talvez o problema seja acreditar que precisamos transformar a nossa vida em algo digno de ser olhado o tempo todo.
Como se existir, por si só, já não fosse suficiente.




