
Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade acima de tudo. Trabalhar muito virou sinônimo de sucesso, e descansar passou a ser quase um ato de culpa. Nesse cenário, o burnout não surge apenas como um cansaço extremo, mas como um sintoma de algo mais profundo: um sujeito que se perde na exigência de corresponder às expectativas — suas e do outro.
O burnout, reconhecido como uma síndrome ligada ao esgotamento profissional, manifesta-se por meio de exaustão emocional, distanciamento afetivo do trabalho e sensação de ineficácia. Porém, pela lente da psicanálise, ele também revela uma crise de identidade. O sujeito, tomado pela necessidade de ser eficiente, útil e reconhecido, acaba se alienando de si mesmo. O prazer, o desejo e o sentido de existir cedem lugar à obrigação e à cobrança incessante.
Muitos pacientes descrevem a sensação de “não conseguir mais”. O corpo falha, o pensamento desacelera, e o prazer desaparece. É como se algo dentro de si dissesse: “não dá mais para seguir assim”. Nesse ponto, o burnout se torna um grito silencioso — o corpo fala o que a palavra não conseguiu expressar.
A escuta clínica, nesse contexto, é fundamental. Ela oferece um espaço onde o sujeito pode se reencontrar, ressignificar seu lugar no trabalho e, principalmente, se permitir existir além da função que exerce. Cuidar de si não é fraqueza — é uma forma de retomar o contato com o próprio desejo, com o que faz sentido de verdade.
O burnout, portanto, é um convite à pausa. Não apenas para descansar, mas para se escutar.





