
Quando falamos sobre Setembro Amarelo, geralmente falamos sobre prevenção do suicídio. Falamos sobre pedir ajuda, conversar, procurar um profissional, estar atento aos sinais.
Tudo isso é importante.
Mas talvez exista uma pergunta anterior, ou pelo menos paralela, que também precise ser feita:
O que acontece quando a vida perde o sentido?
Nem sempre o sofrimento aparece como uma tristeza evidente. Às vezes, ele aparece como uma espécie de esvaziamento.
A pessoa continua trabalhando, estudando, encontrando outras pessoas, cumprindo suas responsabilidades. Por fora, a vida continua acontecendo. Por dentro, porém, pode surgir a sensação de que nada daquilo realmente significa alguma coisa.
Não necessariamente existe um desejo claro de morrer. Pode existir, antes, um cansaço profundo de continuar vivendo da mesma maneira.
E talvez seja justamente aí que algumas conversas sobre saúde mental se tornem insuficientes. Dizer para alguém que “a vida é preciosa” não necessariamente responde à experiência de quem, naquele momento, não consegue mais encontrar essa preciosidade em sua própria vida.
Na Psicologia Analítica, a questão do sentido ocupa um lugar importante. Jung compreendia que a vida psíquica não se reduz à eliminação dos sintomas. Há também uma busca por significado, por uma relação mais própria com a existência e com aquilo que está se transformando dentro de nós.
Isso não significa romantizar o sofrimento.
Nem todo sofrimento contém uma mensagem profunda esperando para ser descoberta. Nem toda crise é uma oportunidade de crescimento. E uma pessoa em sofrimento intenso precisa, antes de tudo, ser acolhida e protegida.
Mas talvez possamos escutar o sofrimento sem reduzi-lo imediatamente a algo que precisa ser silenciado.
Às vezes, a pergunta não é apenas:
“Como fazer essa pessoa parar de pensar em morrer?
Mas também:
“O que aconteceu com a possibilidade de essa pessoa desejar continuar vivendo?
Essa pergunta pode abrir espaço para falar sobre perdas, relações, solidão, frustrações, mudanças, expectativas que deixaram de fazer sentido, versões de si mesmo que já não cabem na própria vida.
Porque o sentido não é necessariamente uma grande descoberta. Ele pode se modificar ao longo da existência.
Aquilo que sustentava alguém há alguns anos pode deixar de sustentar hoje. E reconhecer isso pode ser doloroso.
Por isso, talvez cuidar da saúde mental também seja acompanhar essas transformações: não oferecendo respostas prontas, mas construindo, junto com a pessoa, um espaço onde aquilo que perdeu o sentido possa ser dito, elaborado e compreendido.
Setembro Amarelo pode ser também um convite para falarmos sobre isso.
Não apenas sobre como evitar que alguém morra, mas sobre como podemos ajudar alguém a encontrar novamente possibilidades de viver.
E, quando existe risco de suicídio, essa conversa precisa vir acompanhada de cuidado profissional e de medidas concretas de proteção. Procurar ajuda não diminui a experiência de quem sofre — pode ser justamente uma maneira de não atravessá-la sozinho.
Às vezes, antes de encontrar uma resposta para a pergunta “por que viver?”, precisamos encontrar um lugar onde seja possível perguntar.
Latest posts by this Therapist




