
Cuidar da saúde mental é essencial. Mas há um risco quando falamos sobre transtornos: transformar um diagnóstico em rótulo.
O diagnóstico pode ser uma bússola. Ele ajuda a nomear uma experiência que antes parecia caótica, dá referências para o tratamento, aponta caminhos de cuidado. Para muita gente, receber o nome do que sente traz alívio. É como se, finalmente, houvesse uma explicação para aquele sofrimento.
O problema é quando o diagnóstico vira identidade. “Sou ansioso”, “sou depressivo”, “sou borderline”. Como se a pessoa deixasse de ser ela mesma e passasse a ser apenas o transtorno. Nesse ponto, o que deveria ser ferramenta de cuidado se torna uma prisão.
É importante lembrar: um transtorno fala sobre um conjunto de sintomas, mas não esgota quem você é. Há história, afetos, valores, desejos e potenciais que não cabem em manuais clínicos. Quando o rótulo se sobrepõe ao sujeito, corre-se o risco de perder a singularidade de cada experiência.
Além disso, o rótulo pode ser usado de fora para dentro. A sociedade ainda carrega preconceitos pesados. Alguém com diagnóstico pode ser visto como “fraco”, “incapaz” ou “perigoso”, quando na verdade está apenas lidando com um aspecto da sua saúde como qualquer outro. Isso gera estigmas que, muitas vezes, machucam mais do que o próprio transtorno.
O cuidado verdadeiro está no equilíbrio. Reconhecer o transtorno como parte da vida, mas não como a vida inteira. Usar o diagnóstico como uma chave que abre portas, não como uma etiqueta que fecha caminhos.
A saúde mental precisa ser olhada com a mesma naturalidade que olhamos a saúde física. E talvez o desafio maior seja esse: aprender a cuidar sem reduzir, apoiar sem rotular, enxergar a dor sem apagar a pessoa.





