
Vivemos em uma época em que as exigências externas parecem nunca cessar. Trabalhar mais, produzir mais, consumir mais, ser “melhor”. Essa lógica impõe uma espécie de lei invisível — uma ordem interna que se faz sentir como uma obrigação constante. Mesmo quando não percebemos, ela dita o ritmo do nosso cotidiano. E é diante dessa lei, muitas vezes vivida como tirânica, que muitos acabam reagindo de modo paradoxal: tentam dizer “não” a ela, mas acabam presos em um ciclo de repetições e comportamentos compulsivos que reforçam, sem querer, a mesma imposição que tentavam escapar.
Freud, o criador da psicanálise, já havia observado que a compulsão — esse impulso de repetir certos atos ou pensamentos — não é simplesmente uma escolha consciente. Trata-se de uma força interna que empurra o sujeito a agir mesmo quando ele gostaria de resistir. É como se uma parte de si dissesse “pare”, enquanto outra, mais poderosa, o fizesse continuar. O ato compulsivo aparece, então, como uma tentativa de aliviar o conflito, uma espécie de “vazamento” psíquico — algo que escapa, como o suco que sai da fruta espremida demais.
Nos dias de hoje, as compulsões ganharam novas formas e expressões. Elas aparecem na relação com a comida, com o álcool, com o corpo, com as telas, com o trabalho ou com o consumo. Em comum, há o fato de que esses atos não vêm acompanhados de um verdadeiro posicionamento subjetivo — o sujeito se vê tomado por algo que o domina. Assim, mais do que sintomas isolados, essas compulsões se tornaram, para muitos, um modo de existência, uma maneira de lidar com o sofrimento e com a sensação de estar submetido a uma lei interna que não permite descanso.
Nas compulsões contemporâneas, desaparece o intervalo entre a dúvida e o ato. O sujeito não hesita; ele age. A dúvida, que antes permitia refletir, questionar e criar algum espaço para o desejo, é substituída por uma urgência quase automática. Esse curto-circuito no tempo psíquico mostra o quanto o sujeito se vê capturado por uma força destrutiva, ligada àquilo que a psicanálise chama de pulsão de morte — uma tendência ao excesso, à repetição, à autossabotagem.
Nesses casos, a voz interna que manda “faça!” ou “resista!” não vem de um lugar de cuidado, mas de um imperativo cruel. É como se o sujeito estivesse obedecendo a uma lei que exige sacrifício e sofrimento, em nome de uma perfeição impossível. Essa exigência interna — o chamado supereu — não protege, mas cobra. E, diante dela, o ato compulsivo pode surgir como uma tentativa, ainda que fracassada, de se libertar dessa tirania. Há, nesse movimento, algo que tenta dizer “basta”, algo que tenta abrir espaço para o desejo, ainda que isso não se sustente.
Na psicoterapia, o trabalho com as compulsões não é o de impor mais uma lei, mas o de abrir brechas onde o desejo possa reaparecer. É permitir que o sujeito volte a se escutar, que descubra o que tenta dizer com seus atos repetitivos. O caminho não é rápido nem linear, mas é o único que permite transformar a recusa cega em um gesto de criação. Talvez, nesse processo, o sujeito possa reencontrar algo de si que estava perdido — não o controle total sobre o próprio comportamento, mas a possibilidade de escolher, de desejar e de viver de forma menos cruel consigo mesmo.
Geovanna Moreira Bastos | Psicóloga e psicanalista - CRP 01/30116
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