
Introdução
O fenômeno de "congelamento" em relação a novas tendências culturais e a manutenção de gostos estabelecidos na juventude é uma experiência comum na transição para a meia-idade. O que antes, na juventude, parecia ser uma "teimosia" ou falta de atualização dos mais velhos, revela-se, por volta dos 40 anos, como um processo psicológico profundo de consolidação da identidade e economia psíquica. Este artigo explora, através da lente da psicologia analítica de Carl G. Jung e de dados contemporâneos da neurociência e estatística cultural, por que tendemos a nos "prender" às referências de nossa época de formação.
1. O Conceito de Persona e a Identidade Geracional
Na juventude, a Persona , a face que apresentamos ao mundo para nos adaptarmos socialmente , é fluida e experimental. O jovem busca pertencimento e, para isso, adota as linguagens, músicas e costumes de seu tempo. No entanto, conforme o Ego se fortalece e a vida adulta se estabiliza, essa Persona tende a se cristalizar em torno de símbolos que proporcionam segurança e continuidade biográfica.
A música e os costumes de nossa época de formação (geralmente entre os 15 e 25 anos) tornam-se "âncoras arquetípicas". Elas não são apenas preferências estéticas, mas componentes da estrutura do Ego que sustentam a noção de "quem eu sou" em um mundo em constante mudança.
2. A Metanoia e a Segunda Metade da Vida
Carl Jung descreveu o desenvolvimento humano em duas metades distintas, marcadas por uma transição fundamental que chamou de Metanoia. Na primeira metade da vida, que pode ser entendida como a "manhã", o foco principal é a adaptação externa, a conquista de espaço, a formação de família e carreira. Nesse período, a dinâmica cultural é de expansão, com uma busca ativa pelo novo, pelo "sucesso" do momento e pela diferenciação individual. Já na segunda metade da vida, a "tarde", ocorre uma interiorização, uma busca de sentido mais profunda, e a integração da Sombra e do Self. A dinâmica cultural, nesse estágio, tende a ser de contração, com um retorno às raízes e uma valorização do que é perene e familiar.
Por volta dos 40 anos, a energia psíquica (libido) começa a se retrair do mundo externo para o mundo interno. Jung metaforicamente comparou esse processo ao sol que, ao meio-dia, inicia seu declínio e "recolhe dentro de si os próprios raios" [1]. Nesse estágio, o esforço para acompanhar a "fluidez" da cultura contemporânea , que é cada vez mais rápida e efêmera , pode parecer um gasto desnecessário de energia psíquica, que agora é requisitada para o processo de Individuação (o tornar-se si mesmo).
3. O "Taste Freeze" e o Reminiscence Bump
A ciência contemporânea corrobora a visão junguiana através de conceitos como o Reminiscence Bump (Pico de Reminiscência). Estudos indicam que memórias e preferências formadas na adolescência e início da vida adulta são retidas com maior intensidade emocional [2].
Dados de plataformas como o Spotify sugerem que a descoberta de novas músicas começa a declinar significativamente após os 30 anos, atingindo um ponto de "paralisia musical" por volta dos 33 anos [3]. Do ponto de vista junguiano, isso ocorre porque as músicas da juventude estão carregadas de energia emocional (tonalidade afetiva) ligada à formação do complexo do Ego. Músicas de 20 anos atrás evocam o estado de vigor e descoberta da "manhã da vida", servindo como um refúgio psíquico contra a desorientação da meia-idade.
4. O Embate Arquetípico: Puer e Senex
A tensão entre o novo e o antigo também pode ser compreendida pelo par de opostos arquetípicos Puer Aeternus (o jovem eterno) e Senex (o velho/ancião). O Puer é o espírito da novidade, do caos criativo e da mudança constante. Ele é quem sabe quem é o famoso do momento. Em contraste, o Senex representa a ordem, a tradição, o tempo e a preservação.
Ao atingir os 40 anos, o arquétipo do Senex começa a ganhar espaço na psique para equilibrar a expansão juvenil. Ficar "preso" aos próprios costumes é uma manifestação da necessidade de raízes. No entanto, o desafio junguiano é não permitir que essa preservação se torne rigidez neurótica, mas sim uma base sólida para a sabedoria.
Conclusão
Não saber quem faz sucesso hoje ou preferir as músicas de duas décadas atrás não é um sinal de "desatualização", mas sim de um amadurecimento psíquico. Estamos trocando a extensão (conhecer tudo o que é novo) pela profundidade (valorizar o que ressoa com nossa essência). Como psicólogo, entender esse movimento como uma transição natural da "manhã" para a "tarde" da vida permite acolher a nostalgia não como um lamento pelo passado, mas como uma ferramenta de estabilização da alma no presente.
Autor: Vitor Taveira – CRP 11/23790
Referências Bibliográficas
1.JUNG, Carl G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras Completas, Vol. 8).
2.HOLLIS, James. A Passagem do Meio: Da Miséria à Significação na Meia-Idade. São Paulo: Paulus, 1995.
3.SKIRKA, P. Music Discovery Stops at Age 33. Study based on Spotify US data (2015). Disponível em: WNYC Studios.
4.STEIN, Murray. Individuação: O Caminho de Jung. São Paulo: Cultrix, 2006.
5.IJBA. Metanóia e meia-idade: mergulho nas profundezas da alma. Disponível em: ijba.com.br.




