
Existe uma tendência humana de amar não apenas as pessoas, mas também as histórias que construímos sobre elas.
Antes mesmo de conhecer verdadeiramente alguém, muitas vezes já o revestimos de expectativas, desejos e fantasias.
Enxergamos aquilo que gostaríamos de encontrar: alguém que nos complete, nos compreenda sem falhas ou cure antigos vazios. Nesse movimento, o outro deixa de ser uma pessoa e passa a ocupar um lugar em nossa imaginação.
A idealização nasce justamente dessa dificuldade de lidar com a falta. Em vez de nos relacionarmos com a realidade, tentamos transformá-la em algo que corresponda aos nossos anseios. O problema é que nenhuma pessoa consegue sustentar por muito tempo o peso de uma fantasia.
Mais cedo ou mais tarde, o real aparece.
A contradição surge. O defeito se revela. A diferença se impõe. E aquilo que antes parecia encantador passa a ser vivido como decepção. Mas talvez a decepção não venha do outro. Talvez ela venha do desencontro entre quem a pessoa é e quem imaginávamos que ela fosse.
Na perspectiva psicanalítica, amar não significa encontrar alguém perfeito. Significa reconhecer que o outro existe para além dos nossos desejos. Existe como sujeito, com sua própria história, suas faltas, seus limites e suas contradições.
Por isso, o encontro verdadeiro não acontece na idealização. Ele começa quando ela falha.
Quando a imagem se rompe, surge a possibilidade de algo mais profundo: a experiência de se relacionar com alguém real. Não com uma promessa de completude, mas com uma presença humana.
Talvez amar seja justamente sustentar esse encontro. Permanecer diante da imperfeição sem transformá-la imediatamente em desilusão. Aceitar que o outro nunca será tudo aquilo que sonhamos e, ainda assim, encontrar valor em sua existência.
Porque, no fim, não é a fantasia que aproxima as pessoas. É a capacidade de sobreviver ao seu fim.




