
"Bicho de Sete Cabeças", dirigido por Laís Bodanzky, é um soco no estômago que transcende a tela para se aprofundar nas feridas da saúde mental no Brasil. Mais do que um filme, é um grito de alerta que nos força a confrontar as práticas desumanas e o descaso histórico com a loucura, tema central da trama.
O filme narra a história de Neto (Rodrigo Santoro), um adolescente que, após ser pego fumando maconha, é internado à força em um hospital psiquiátrico por seu pai. A partir daí, o que deveria ser uma "cura" se transforma em um pesadelo. A instituição retratada é um retrato chocante dos manicômios do passado (e, infelizmente, do presente em alguns casos): um lugar de violação de direitos, com pacientes amontoados, sedados de forma excessiva e submetidos a tratamentos violentos.
O grande mérito da obra é expor como a psiquiatria e a saúde mental, em vez de serem ferramentas de cuidado, podem se tornar instrumentos de opressão social. O filme questiona a linha tênue entre a "sanidade" e a "loucura", mostrando que muitas vezes a internação não se baseava em um diagnóstico, mas sim no desconforto que o comportamento do indivíduo gerava na família e na sociedade. Neto não era um psicótico, mas um jovem em conflito com seus pais. A internação compulsória, nesse contexto, surge como uma forma de silenciamento e controle.
A obra é também um convite à reflexão sobre a reforma psiquiátrica no Brasil. Lançado em 2001, o filme ecoa os ideais da Luta Antimanicomial, um movimento que defende a substituição dos manicômios por serviços de atenção à saúde mental de base comunitária. Ele nos lembra da importância de tratar o sofrimento psíquico com dignidade, humanidade e, sobretudo, em liberdade. A luta de Neto por sua sanidade e autonomia ressoa a luta de milhares de pessoas que foram (e são) privadas de sua liberdade e voz em nome de uma "cura" que nunca chegou.
"Bicho de Sete Cabeças" é um filme fundamental para entender a história da saúde mental no Brasil. Ele nos provoca a questionar: será que realmente evoluímos? Ele nos lembra que a verdadeira cura não reside em muros e grades, mas na empatia, no acolhimento e no respeito à complexidade da mente humana.





