
Na prática clínica, é comum ouvir pessoas dizendo que "as coisas sempre acabam do mesmo jeito", mesmo quando mudam de trabalho, de cidade ou de relacionamento. Às vezes parece que o cenário muda, mas o enredo continua o mesmo. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) nos ajuda a compreender esse fenômeno, mostrando que a repetição não é apenas fruto do acaso, mas o reflexo de padrões de pensamento e comportamento que seguimos sem perceber.
Nossos pensamentos, emoções e atitudes formam um sistema interligado. Quando pensamos de determinada maneira, sentimos de forma correspondente e tendemos a agir em coerência com nossas emoções. Com o tempo, esse processo se torna tão automático que passamos a reagir mais por hábito do que por escolha. Por exemplo, uma pessoa que cresceu acreditando que precisa ser aceita a qualquer custo pode, inconscientemente, evitar conflitos e dizer "sim" mesmo quando quer dizer "não". Isso a leva a se sentir sobrecarregada e desvalorizada, reforçando a ideia de que "as pessoas se aproveitam de mim". Assim, a crença inicial se confirma, e o ciclo se repete.
A terapia cognitivo-comportamental propõe que esses padrões Sejam trazidos à consciência. Quando o paciente começa a observar seus pensamentos automáticos (aquelas frases rápidas e quase imperceptíveis que passam pela mente diante de uma situação). Ele aprende a questionar sua verdade e o Impacto que exercem sobre seu comportamento. Essa observação é o primeiro passo para o autoconhecimento. Com o tempo, o indivíduo passa a reconhecer que não é a situação em si que define seu sofrimento, mas a forma como a interpreta. E essa compreensão abre espaço para novas formas de lidar com a realidade.
É importante ressaltar que a ideia de "mudar" da qual me refiro não é de mudar quem é a pessoa, não se trata de apagar a própria história, personalidade ou essência. A mudança na terapia diz respeito à modificação de padrões que se repetem e perpetuam sofrimento. É um movimento interno de perceber o que está por trás das reações automáticas, de questionar crenças que já não servem mais e de construir respostas mais conscientes e coerentes com os próprios valores.
Mudar, nesse contexto, não significa deixar de sentir medo, tristeza ou raiva. Significa aprender a compreender essas emoções, a dar a elas lugar legítimo, sem deixar que elas conduzam todas as escolhas. A terapia não busca eliminar a dor humana, mas oferecer ferramentas para que possamos enfrentá-la com mais clareza e equilíbrio. Isso exige pratica, reflexão e, sobretudo, disposição para sair do modo automático que tantas vezes nos aprisiona.
Vitoria Eugenia Luz Alcoforado | Psicóloga | CRP: 03/33622
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