
Entre agradar o outro e escutar a si mesma: por que dizer “não” pode ser tão difícil?
Um olhar sistêmico sobre limites, vínculos e a dificuldade de sustentar a própria posição.
7 oct 2026
Franciely Ribeiro
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Você já quis dizer “não”, mas acabou dizendo “sim”?
Talvez por medo de decepcionar, de magoar alguém ou de provocar um conflito. Às vezes, sabemos o que queremos, mas, diante da reação do outro, começamos a duvidar de nós mesmas.
E, quando isso acontece muitas vezes, pode surgir uma sensação difícil de perceber: a de que estamos tão preocupadas em cuidar da relação que acabamos deixando de escutar o que acontece dentro de nós.
Quando agradar parece mais seguro
Ao longo da vida, aprendemos maneiras de nos relacionar. A família é um dos primeiros lugares onde começamos a compreender o que significa cuidar, ajudar, agradar, discordar e pertencer.
Talvez você tenha aprendido que ser uma “boa filha” era ajudar sempre. Ou que evitar conflitos era uma forma de manter a família bem. Talvez tenha percebido que, quando alguém estava mal, era melhor deixar suas próprias necessidades em segundo plano.
Esses aprendizados não acontecem necessariamente de forma consciente. Muitas vezes, vamos observando e encontrando maneiras de nos adaptar ao ambiente em que vivemos.
E algumas dessas formas de adaptação podem continuar presentes mesmo quando já não são tão necessárias.
É assim que, para algumas pessoas, estar sempre disponível, resolver problemas ou cuidar de todos pode se tornar quase um lugar conhecido. Um lugar que traz a sensação de ser necessária, importante ou reconhecida.
Por isso, talvez não seja tão simples simplesmente “aprender a dizer não”.
Cuidar do outro sem deixar de se perceber
Cuidar de quem amamos pode ser uma expressão importante de afeto. Estar disponível, ajudar e considerar as necessidades do outro também faz parte dos vínculos.
A questão não está em deixar de cuidar.
Talvez esteja em perceber quando o cuidado deixa de ser uma escolha e passa a parecer uma obrigação.
Quando precisamos estar sempre disponíveis, evitar que alguém sofra, resolver os problemas ou assumir responsabilidades que não são somente nossas, podemos acabar nos afastando das nossas próprias necessidades.
E, aos poucos, pode ficar mais fácil perceber o que o outro precisa do que reconhecer aquilo que nós mesmas precisamos.
Por isso, cuidar de si não significa cuidar menos do outro. Significa lembrar que você também faz parte das relações das quais cuida.
É justamente nesse ponto que podemos começar a compreender por que sustentar uma posição própria pode ser tão desafiador.
O que Bowen nos ajuda a compreender
O psiquiatra e pesquisador Murray Bowen, um dos principais nomes da Terapia Familiar Sistêmica, desenvolveu o conceito de diferenciação do self.
De forma simples, podemos pensar na diferenciação como a capacidade de reconhecer o que pensamos, sentimos e queremos, conseguindo sustentar uma posição própria sem precisar romper com as pessoas importantes para nós.
Isso significa que podemos amar alguém e discordar dessa pessoa.
Podemos compreender que alguém ficou chateado e, ainda assim, manter uma decisão importante para nós.
Podemos nos importar com o outro sem assumir a responsabilidade por tudo aquilo que ele sente.
Diferenciar-se não significa deixar de sentir culpa, medo ou preocupação. Esses sentimentos podem continuar existindo.
Significa conseguir percebê-los e, ainda assim, refletir sobre o que realmente queremos fazer, sem mudar imediatamente nossa posição apenas para aliviar o desconforto.
E essa não é uma tarefa que acontece somente dentro de nós. Afinal, nossas escolhas também acontecem dentro de relações.
Quando nossa mudança também toca as relações
Na perspectiva sistêmica, não somos pessoas isoladas. Fazemos parte de famílias, casais, amizades, grupos de trabalho e diferentes contextos relacionais.
Somos influenciados por esses sistemas e, ao mesmo tempo, também os influenciamos.
Por isso, quando começamos a mudar nossa maneira de nos posicionar, as pessoas ao nosso redor podem estranhar.
Se alguém que sempre esteve disponível para resolver tudo começa a estabelecer limites, por exemplo, essa mudança pode provocar diferentes reações.
Isso não significa necessariamente que exista uma intenção de controlar. Muitas vezes, os relacionamentos simplesmente tendem a buscar aquilo que lhes é familiar.
É por isso que mudar um padrão pode ser desconfortável.
Talvez você sinta culpa ao dizer “não”. Talvez alguém não compreenda sua mudança de imediato. Talvez sustentar uma posição própria pareça estranho no começo.
Mas o desconforto não significa necessariamente que você esteja fazendo algo errado.
Às vezes, ele apenas mostra que você está experimentando uma maneira diferente de estar nas suas relações.
Entre agradar o outro e escutar a si mesma
Aprender a colocar limites não significa se tornar uma pessoa que nunca ajuda, nunca cede ou nunca considera o outro.
Significa poder fazer essas escolhas com mais consciência.
Dizer “sim” porque realmente quer.
Ajudar porque pode.
Cuidar porque escolheu cuidar.
E também conseguir dizer “não” quando algo ultrapassa seus limites ou não faz sentido para você.
Talvez aprender a dizer “não” não seja aprender a se importar menos com os outros.
Talvez seja descobrir que é possível se importar sem deixar de escutar a si mesma.
Podemos cuidar sem assumir a responsabilidade por tudo. Podemos amar sem precisar salvar. Podemos estar presentes sem estar disponíveis o tempo inteiro.
E podemos construir relações em que pertencer não precise significar abrir mão de quem somos.
Talvez seja esse o caminho: não precisar desaparecer dentro de uma relação para continuar fazendo parte dela.
Referências
BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.
Quem sou eu?

Maria Eduarda Chaves Siqueira
CRP:

06/214960
Atendimento:
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Sou psicóloga clínica, com abordagem em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Atendo pessoas que enfrentam dificuldades emocionais como ansiedade, estresse, insegurança, baixa autoestima e desafios nos relacionamentos. Sou pós-graduada em Transtornos do Desenvolvimento e Análise do Comportamento. Meu trabalho é voltado à promoção da saúde emocional, ao autoconhecimento e ao desenvolvimento de estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.
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