
O início de um novo ano costuma vir acompanhado de listas, metas, promessas e expectativas. Há uma ideia socialmente compartilhada de que este é o momento de “recomeçar”, mudar tudo, ser alguém melhor, mais produtivo, mais feliz. Mas, para muitas pessoas, esse período não traz entusiasmo, traz angústia, cansaço e até culpa. Na clínica, é comum escutar frases como: “Eu deveria estar animada, mas não estou” ou “Parece que todo mundo sabe para onde vai, menos eu”. E isso diz muito sobre como o início do ano pode impactar emocionalmente.
Pela perspectiva winnicottiana, o sofrimento aparece quando o indivíduo sente que precisa se adaptar excessivamente às expectativas externas, afastando-se de si mesmo. Quando os planos não nascem do gesto espontâneo, mas da obrigação de corresponder ao que é esperado, o risco é vivermos no chamado falso self, funcionando, cumprindo tarefas, mas desconectados do que é verdadeiro internamente.
Nem todo início de ano é um terreno fértil para grandes mudanças. Algumas pessoas estão em processo de luto, esgotamento, depressão ou simplesmente precisam de tempo. E isso também é saúde emocional. Winnicott nos lembra da importância de um ambiente suficientemente bom, que respeite o ritmo do sujeito e não o violente com exigências irreais.
Talvez, em vez de grandes metas, o começo do ano possa ser um convite para escutar: O que em mim pede cuidado agora?O que é possível, e não o que é ideal? O que faz sentido para mim, e não para os outros?
Planos podem ser importantes, sim. Mas eles só são sustentáveis quando nascem de um contato genuíno com o próprio desejo. Às vezes, o plano do ano é simplesmente sobreviver, se reorganizar internamente ou descansar, e isso já é muito.
Se o início do ano tem sido pesado para você, saiba: não há nada de errado em não estar bem. O tempo psíquico não obedece ao calendário.
E o processo terapêutico pode ser um espaço seguro para construir, aos poucos, um caminho que seja possível e verdadeiro para você.🌱





