
Maio é o mês dedicado, no Brasil, ao enfrentamento do abuso e da exploração sexual de crianças e adolescentes. A campanha do Maio Laranja convoca a sociedade a olhar para uma realidade que costuma ser silenciada — uma realidade que, segundo os dados oficiais, está longe de regredir. Falar sobre o tema, com informação qualificada e sem rodeios, é uma das formas mais concretas de proteção que podemos oferecer.
Os números que precisamos enxergar
Em 2025, o Brasil registrou 59.887 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. Esse número, expressivo por si só, é considerado pelas autoridades sanitárias como um retrato parcial — a subnotificação no Brasil é alta, e muitos casos nunca chegam aos canais oficiais. O que esses dados deixam claro, no entanto, é uma característica preocupante e bem documentada: o ambiente doméstico concentra a maior parte das ocorrências. Na maioria das vezes, o agressor é alguém de dentro do próprio círculo de confiança da família — um parente, um vizinho, um amigo próximo. Essa é exatamente a razão pela qual o tema é tão difícil de ser enfrentado: o agressor raramente é o estranho da narrativa popular, e a proximidade com a vítima é o que sustenta o silêncio.
Um dever de todos
O Art. 227 da Constituição Federal afirma que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar os direitos de crianças e adolescentes e protegê-los de toda forma de violência, exploração e crueldade. A redação constitucional é deliberadamente coletiva: não responsabiliza apenas os pais, nem apenas o poder público. Proteger crianças e adolescentes é tarefa de todos — e o primeiro passo dessa proteção é saber reconhecer os sinais que podem ser indícios de violência e conhecer as formas de prevenção. É sobre isso que tratam os tópicos a seguir.
Sinais comportamentais que merecem atenção
Nem todo abuso deixa marca física, e na maioria das vezes os primeiros indícios aparecem no comportamento. A literatura sobre o tema é consistente em apontar mudanças comportamentais como o canal mais frequente pelo qual crianças vítimas de violência sexual sinalizam o sofrimento.
Entre os sinais comportamentais que merecem atenção, destacam-se mudanças repentinas de humor, sono ou apetite; medo, pânico ou desconforto intenso na presença de pessoa específica; regressões, como voltar a fazer xixi na cama ou chupar dedo; pesadelos frequentes, ansiedade e isolamento; queda repentina no rendimento escolar; comportamentos ou conhecimentos sexuais incompatíveis com a idade da criança. Em adolescentes, é importante observar ainda automutilação, uso de substâncias, fugas e ideação suicida — sinais que não são exclusivos de quadros de violência sexual, mas que devem entrar no radar quando aparecem associados a outras alterações.
Sinais físicos
Em alguns casos, sinais físicos também podem estar presentes. Entre eles, marcas, hematomas ou lesões em regiões íntimas; infecções urinárias recorrentes ou infecções sexualmente transmissíveis; dores abdominais, de cabeça ou gastrointestinais sem causa médica identificada; e gravidez precoce. Esses sinais, quando presentes, exigem avaliação médica imediata.
Importante: nenhum sinal, isolado, confirma abuso. É o conjunto de mudanças, lido no contexto da vida da criança, que pede investigação cuidadosa por profissionais qualificados. Diagnósticos precipitados, baseados em um único sinal descontextualizado, podem causar tanto sofrimento quanto a negligência diante de sinais evidentes.
Como prevenir
A prevenção começa muito antes do que normalmente se imagina, e envolve práticas cotidianas que podem ser construídas em qualquer família. Algumas orientações estão consolidadas na literatura especializada e em materiais educativos de organizações de referência, como a Childhood Brasil, o UNICEF e a Fundação Abrinq.
Use os nomes corretos das partes do corpo desde cedo. Vocabulário claro protege, porque dá à criança recursos para nomear o que aconteceu se algo acontecer. Ensine sobre limites corporais com clareza: as partes íntimas (cobertas pela roupa de banho) pertencem à criança. Existem exceções legítimas, como banho com cuidadores de confiança, troca de fraldas e exames médicos na presença de um responsável, e é importante nomeá-las para que a criança diferencie cuidado de violação. Fora desses contextos, qualquer toque, pedido ou abordagem desse tipo, inclusive por pessoas próximas, deve ser contado imediatamente a um adulto de confiança.
Garanta que a criança saiba que pode contar qualquer coisa, sem julgamento e sem castigo. Diferencie surpresa (boa, temporária) de segredo (que causa medo ou desconforto). Adultos que pedem segredo sobre toques são suspeitos. Acompanhe o ambiente digital — em 2025, 64% das denúncias recebidas pela SaferNet Brasil foram de abuso e exploração sexual infantil online, o que evidencia o quanto o ambiente virtual passou a ser, também, território de violação. Por fim, acredite na criança. A descrença adulta é uma das principais razões pelas quais o abuso continua, e o relato infantil, na imensa maioria dos casos, é verdadeiro.
Onde denunciar
A denúncia é um instrumento legítimo, protegido por lei, e em muitos casos é o que rompe o ciclo de violência. Os principais canais de denúncia disponíveis no Brasil são:
- Disque 100 (Disque Direitos Humanos): ligação gratuita, 24h, anônima e sigilosa.
- WhatsApp da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos: (61) 99611-0100.
- 190 — Polícia Militar, em situações de urgência.
- Disque 181 — Polícia Civil de São Paulo, com denúncia anônima.
- Delegacias especializadas — DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente) ou qualquer delegacia comum.
- Conselho Tutelar do município — órgão de proteção que recebe denúncias e encaminha casos à rede.
Rede de acolhimento
Diante de uma suspeita ou de um caso confirmado, a criança ou adolescente e sua família precisam de uma rede que acolha. Essa rede inclui o Conselho Tutelar do município, o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), o Ministério Público da Infância e Juventude, as UBS e demais serviços de saúde do SUS — inclusive hospitais de referência para atendimento de vítimas de violência sexual —, a Defensoria Pública e o acompanhamento psicológico especializado. A articulação entre esses serviços é o que permite que a criança tenha não apenas a interrupção da violência, mas também a reparação possível dos efeitos psicológicos do que viveu.
Falar é proteger
O Maio Laranja é um chamado anual, mas a responsabilidade que ele aponta é permanente. Crianças e adolescentes dependem de adultos que saibam reconhecer, que estejam dispostos a acreditar, e que tenham coragem de acionar a rede. A informação é a base dessa coragem, e por isso compartilhar este conteúdo é, em si, uma forma de cuidar.
Luísa Homsi Jorge Ferreira — Psicóloga | CRP 06/233094Contato: (16) 99621-7931 | @psi.luisahjferreira | luisa.hj.ferreira@gmail.com
Fontes consultadas: Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (Disque 100, 2026); Ministério da Saúde (Sinan, 2025); SaferNet Brasil (Relatório 2025); Childhood Brasil; UNICEF Brasil; Fundação Abrinq. Para verificação dos dados estatísticos: gov.br/mdh (Painel de Dados da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos).





