
Viver fora do Brasil é carregar dois mundos dentro de si. Um mundo que ficou para trás, cheio de vozes, cheiros e memórias que parecem pulsar no peito, e outro que precisa ser descoberto, compreendido e conquistado dia após dia. Entre esses dois mundos surge, muitas vezes, um silêncio profundo — uma solidão que não se limita à ausência de pessoas próximas, mas que ecoa na alma, lembrando que pertencemos a lugares e afetos que não estão ao nosso alcance.
A psicologia nos lembra que o ser humano é essencialmente relacional. Precisamos de vínculos para nos sentirmos completos, para reconhecer quem somos e qual é o nosso lugar no mundo. Quando estamos distantes da família, dos amigos e da cultura que nos moldou, essa rede de apoio se fragiliza, e o psiquismo sente o impacto. Ansiedade, tristeza, insegurança e sensação de deslocamento tornam-se companhias silenciosas do dia a dia.
Para o brasileiro que mora fora, a solidão vai além da distância física. É existencial. Sentir-se estrangeiro em outro país é, muitas vezes, sentir-se estrangeiro dentro de si mesmo. Teóricos como Erik Erikson lembram que a identidade se constrói na relação com o outro e no reconhecimento que recebemos. Quando esse reconhecimento não existe, ou é limitado, instala-se o vazio: a sensação de não pertencer totalmente a lugar algum, nem ao país que ficou, nem ao que se habita agora.
Mas há também espaço para transformação. É na solidão que o autoconhecimento floresce. A terapia oferece um refúgio seguro, um lugar para colocar em palavras o que antes parecia irreconhecível. A psicanálise ensina que, ao falar, reorganizamos nossa história, damos sentido à distância e transformamos a saudade e o desconforto em travessia. A solidão deixa de ser apenas dor e torna-se oportunidade de compreender a si mesmo, fortalecer raízes internas e descobrir novas formas de pertencer.
Viver fora é desafiador. A saudade machuca, a adaptação cansa, a sensação de deslocamento assusta. Mas é nesse desafio que muitos brasileiros aprendem a se encontrar, a acolher suas memórias e afetos, e a perceber que o lar não está apenas nos lugares, mas dentro de nós. Raízes distantes podem sustentar a vida quando cultivadas com atenção, reflexão e cuidado consigo mesmo.





