
Em muitos relacionamentos, o início parece um sonho. A conexão é intensa, as palavras são encantadoras, e a pessoa parece ter finalmente encontrado alguém que a enxerga de verdade. Mas, com o tempo, essa imagem perfeita começa a se desfazer — e o que antes era encanto se transforma em indiferença, críticas e controle. Essa oscilação entre idealização e desvalorização é uma das marcas mais comuns nos vínculos com pessoas de traços narcisistas.
O narcisista costuma construir uma imagem grandiosa de si mesmo, uma fachada que precisa ser constantemente alimentada pela admiração do outro. No começo, ele idealiza o parceiro: o enche de atenção, elogios e promessas, como se o outro fosse essencial para sua vida. Essa fase inicial gera uma sensação de fusão e dependência emocional, quase como se o amor tivesse finalmente preenchido todos os vazios.
Mas essa idealização tem um preço. Assim que o outro começa a mostrar sua individualidade — com opiniões, limites ou necessidades próprias —, o encanto se quebra. O narcisista se sente ameaçado, pois o parceiro deixa de ser um espelho perfeito que confirma sua grandiosidade. É nesse momento que surge a desvalorização: críticas, frieza, manipulação e até indiferença.
O parceiro, confuso, tenta resgatar a fase inicial, acreditando que “algo se perdeu”. Na verdade, o que caiu foi a máscara. E quanto mais o outro tenta agradar, mais se perde na dinâmica de dominação e controle. Esse ciclo — idealização, desvalorização e descarte — é exaustivo emocionalmente e pode deixar marcas profundas na autoestima e na confiança.
Do ponto de vista psicanalítico, o narcisismo revela uma fragilidade interna. Por trás da arrogância, há um medo imenso de rejeição e de contato com o próprio vazio. A dificuldade de reconhecer o outro como sujeito separado é o que torna o vínculo tão destrutivo: o outro não é amado pelo que é, mas pelo papel que desempenha.
Romper com esse ciclo é, antes de tudo, um ato de autoconhecimento. Reconhecer o padrão, resgatar a própria voz e reconstruir a capacidade de se ver como alguém digno de amor e respeito são passos fundamentais. A terapia ajuda nesse processo, oferecendo um espaço para compreender as feridas que nos fazem permanecer onde não somos vistos de verdade.
Porque, no fim, amar não é se perder no outro — é se encontrar na relação.





