
Não lembro nada da minha infância!” — essa é uma frase que muitos terapeutas escutam no consultório. À primeira vista, pode parecer apenas uma curiosidade sobre a memória, mas, na verdade, ela revela algo muito mais profundo. Segundo a psicanálise, esse esquecimento está ligado ao que Freud chamou de amnésia infantil, um fenômeno que faz parte da estrutura psíquica de todos nós. Mas o que acontece com essas lembranças? Será que elas desaparecem para sempre?
A psicanálise nos mostra que não. As memórias esquecidas não se apagam — elas apenas ficam guardadas em um lugar especial da mente: o inconsciente. É ali que ficam armazenadas as experiências, os afetos e os acontecimentos que, por algum motivo, não puderam ser lembrados de forma consciente. Elas continuam atuando, silenciosamente, influenciando nossos pensamentos, escolhas, sentimentos e até sintomas.
Freud descobriu que o inconsciente funciona com uma lógica própria, diferente da razão consciente. O que é muito doloroso ou perturbador tende a ser recalcado, ou seja, empurrado para fora do campo da consciência. Isso acontece como uma forma de proteção: o psiquismo tenta evitar o sofrimento que lembrar certas coisas poderia causar. Porém, o que é reprimido não desaparece — ele retorna de outras maneiras, nos sonhos, nos lapsos de fala, nas repetições e nos sintomas.
É por isso que muitas vezes reagimos de forma estranha a certas situações, ou sentimos algo que “não faz sentido”. Esses são os vestígios do inconsciente tentando se expressar. A análise é o espaço onde podemos dar voz a essas manifestações, mesmo que, no início, elas apareçam de forma confusa, fragmentada ou sem lógica aparente. O trabalho do analista é justamente escutar aquilo que o sujeito diz — e também o que ele não consegue dizer.
O objetivo da psicanálise não é simplesmente “lembrar” o passado como quem assiste a um filme antigo. O que importa é ressignificar o que foi vivido e que continua nos afetando, ainda que de forma inconsciente. Ao colocar em palavras o que antes estava silenciado, o sujeito pode aliviar o peso de certos conteúdos, entendendo o que o faz repetir sofrimentos ou se sabotar. Como diz o psicanalista Antônio Quinet, “adianta saber das coisas recalcadas, até que algumas deixem de causar sofrimento”.
Essas lembranças e afetos não formam uma verdade única ou absoluta. O inconsciente é feito também de lacunas, equívocos e invenções — e é justamente nesse emaranhado de fragmentos que se constrói a nossa história subjetiva. Ao falar livremente, sem censura, o sujeito pode escutar-se e descobrir o que realmente deseja, o que o move, e o que o faz sofrer. Esse processo é libertador, pois permite que ele se reposicione diante de si mesmo e da vida.
Procurar psicoterapia, nesse sentido, é um ato de coragem e de desejo. É escolher olhar para dentro, escutar o que o inconsciente tem a dizer e se permitir construir novos significados para a própria história. A análise não apaga o passado, mas oferece a chance de transformar o modo como ele age sobre o presente. E, aos poucos, aquilo que antes era apenas esquecimento pode se tornar compreensão, leveza e recomeço.





