
Frieren: Beyond Journey's End é uma série japonesa que acompanha um grupo de heróis depois que a grande aventura já acabou. Eles derrotaram o Rei Demônio, salvaram o mundo, e agora voltam para casa. A série poderia terminar aí. Em vez disso, ela fica. Fica no tempo que passa, nas despedidas que chegam devagar, nas pessoas que vão envelhecendo enquanto Frieren, a elfa maga do grupo, permanece a mesma.
Tem uma cena no início que me tocou. Os heróis se reencontram anos depois para ver uma chuva de meteoros, um fenômeno que acontece a cada cinquenta anos. Himmel, o guerreiro que liderou o grupo, está velho. Frieren está igual. Olhando para ele naquele momento, ela percebe que vai perdê-lo antes que os próximos meteoros apareçam. Ela tinha vivido dez anos ao lado dele e não tinha realmente prestado atenção.
No enterro de Himmel, Frieren chora. E se surpreende com isso. Não entende por que está tão abalada por alguém que conheceu por "apenas" dez anos. Para ela, dez anos é pouco. Mas é um choro de amargor, de quem percebe tarde demais que não aproveitou o tempo que tinha.
Penso nessa cena com frequência na clínica. Cada pessoa que chega carrega um tempo próprio, que não tem nada a ver com o relógio. Tem gente que traz dez anos como se fossem cem. Uma perda que nunca foi chorada direito, uma escolha que ficou atravessada no corpo, um relacionamento que terminou mas que por dentro ainda está acontecendo.
O tempo passou no calendário. Por dentro, não.
Uma das crenças que mais vejo causando sofrimento é a de que o luto tem prazo. As pessoas chegam envergonhadas de ainda sentirem falta de alguém que partiu há anos, como se a data no calendário pudesse decretar o fim de uma saudade. Mas o luto tem o seu próprio ritmo. Não é fraqueza levar tempo. É, muitas vezes, a medida do quanto aquilo importou.
Tem outro lado dessa história que também me interessa. Frieren sabe que vai perder todo mundo. E isso cria nela uma certa distância, uma dificuldade de se deixar afetar, porque afetar significa sofrer. Reconheço esse movimento em muitas pessoas que chegam ao consultório. Para não sofrer a perda, a pessoa para de se aproximar. Para não se decepcionar, deixa de esperar. A vida vai ficando protegida demais para ser habitada de verdade.
O que me parece mais bonito em Frieren é que ela não resolve isso. Não encontra uma resposta definitiva para a finitude.
O que ela encontra é outra coisa: a possibilidade de continuar, mesmo sabendo de tudo isso. De aceitar novas companhias, mesmo sabendo que um dia vai perdê-las. De seguir, não apesar da finitude, mas dentro dela.
Na abordagem com a qual trabalho (Daseinanálise), existe uma compreensão de que o tempo não é só aquilo que nos tira as coisas. É também o que nos transforma, o que nos libera de certas angústias, o que permite que certas dores encontrem lugar para ser carregadas. O trabalho da clínica, muitas vezes, é criar um espaço em que o tempo possa ser habitado com mais presença. Em que o que ficou preso possa, finalmente, começar a se mover.
Frieren não é uma série sobre magia ou aventura, embora tenha as duas coisas. É uma série sobre o que fazemos com o tempo que temos, e com o tempo que perdemos.
O trabalho da clínica, muitas vezes, é exatamente esse: criar um espaço em que o tempo possa ser habitado com mais presença. Em que o que ficou preso possa, finalmente, começar a se mover.
Ana Carolina Faria, CRP 04/84913. @re_existirpsi
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