
Você já percebeu que, em algumas relações, começa aceitando uma pequena ausência, depois uma pequena desvalorização, um silêncio, uma promessa que não se cumpre… até que, quando percebe, está tentando convencer alguém a oferecer aquilo que deveria existir minimamente em uma relação?
Talvez a pergunta não seja apenas por que alguém nos oferece tão pouco.
Talvez seja também:
O que nos faz permanecer tentando transformar pouco em suficiente?
Essa é uma pergunta que pode nos levar para além da ideia de autoestima ou de “amor-próprio”. Porque, muitas vezes, a pessoa sabe racionalmente que determinada relação não lhe faz bem. Sabe que está recebendo pouco. Sabe que está sofrendo.
E, ainda assim, não consegue ir embora.
É nesse ponto que podemos começar a pensar sobre o inconsciente, a repetição e a maneira como cada sujeito aprendeu, ao longo da própria história, a se relacionar com o amor.
Quando o pouco se torna familiar
Nem sempre escolhemos conscientemente aquilo que nos faz sofrer.
Ao longo da vida, construímos formas de amar, esperar, desejar e nos proteger. Algumas delas começam muito cedo, a partir das experiências que tivemos com nossas primeiras relações, com nossa família e com as pessoas que exerceram funções importantes em nossa constituição.
Isso não significa que toda dificuldade amorosa seja resultado de um trauma de infância ou que exista uma relação simples de causa e efeito entre passado e presente.
A questão é mais complexa.
O que foi vivido pode participar da maneira como aprendemos a interpretar proximidade, abandono, rejeição, cuidado e reconhecimento.
Para algumas pessoas, por exemplo, o amor pode ter sido associado à espera.
Para outras, à necessidade de agradar.
Para outras, ainda, à sensação de que era preciso fazer alguma coisa para merecer atenção.
Na vida adulta, essas marcas podem reaparecer de maneiras diferentes.
E aquilo que deveria causar estranhamento pode acabar parecendo familiar.
O amor que chega em doses
Existe uma dinâmica particularmente poderosa em determinadas relações: a alternância entre aproximação e afastamento.
Um dia existe carinho. No outro, silêncio.
Depois vem uma declaração de amor.
Em seguida, distância.
Quando a pessoa começa a desistir, o outro reaparece.
E justamente quando ela se sente segura novamente, ele se afasta.
Essa imprevisibilidade pode produzir uma espécie de espera permanente.
É como se a pessoa passasse a viver em função do próximo momento de reconhecimento.
Quando ele vai voltar?
Quando vai me procurar?
Quando vai perceber o meu valor?
Quando finalmente vai me escolher?
O problema é que, nesse tipo de dinâmica, o desejo pode ficar preso justamente àquilo que falta.
A pessoa não está apenas esperando pelo outro.
Está esperando pelo momento em que aquilo que sempre faltou finalmente será oferecido.
E isso pode tornar extremamente difícil romper com a relação.
Nem todo abuso deixa marcas visíveis
Relacionamentos abusivos nem sempre são marcados por violência física evidente.
Às vezes, o sofrimento acontece lentamente.
Uma crítica aqui.
Uma desvalorização ali.
Uma comparação.
Um silêncio utilizado como punição.
Uma piada que diminui.
Uma ameaça velada de abandono.
Uma pessoa começa a duvidar da própria percepção, depois da própria capacidade e, pouco a pouco, da própria identidade.
É uma espécie de “ditadura do veludo”: por fora, nem sempre existe algo que pareça suficientemente grave para justificar a ruptura. Mas, por dentro, a pessoa vai ficando cada vez menor.
Ela começa a pensar:
“Talvez eu esteja exagerando.”
“Talvez eu esteja cobrando demais.”
“Talvez o problema seja comigo.”
E quanto mais questiona a si mesma, mais difícil se torna reconhecer a violência da relação.
O delírio narcísico do início do amor
Mas existe ainda outro lado dessa questão: nem sempre o sofrimento começa quando o outro nos desvaloriza.
Às vezes, começa quando o idealizamos demais.
No início de uma paixão, é comum que o outro seja investido de características que ultrapassam aquilo que ele realmente é.
Ele parece diferente.
Especial.
Único.
Finalmente encontramos “aquela pessoa”.
É como se o outro pudesse ocupar um lugar capaz de responder a algo que sentimos faltar em nós.
Nesse momento, não encontramos apenas uma pessoa real.
Encontramos também uma imagem.
Uma fantasia.
Uma promessa.
Um ideal.
Por isso, o encontro com a realidade pode ser tão desconcertante.
Com o tempo, aparece a rotina.
As diferenças.
Os defeitos.
As frustrações.
O “odor do banheiro compartilhado”.
A pessoa que parecia perfeita começa a existir em sua dimensão humana: imperfeita, contraditória, faltante.
E nós também.
A idealização cai.
E então surge uma questão fundamental:
É possível amar alguém sem precisar transformá-lo naquilo que imaginamos que ele deveria ser?
Amar não é ser completado
Na perspectiva psicanalítica, o amor não pode ser pensado simplesmente como o encontro de duas pessoas que finalmente se completam.
Jacques Lacan formulou uma das ideias mais conhecidas sobre o amor ao dizer que “amar é dar o que não se tem”.
A frase pode parecer paradoxal.
Mas justamente aí está sua potência.
Amar não significa entregar ao outro aquilo que supostamente preencherá todas as suas faltas.
Também não significa exigir que o outro cure nossas feridas, resolva nossas inseguranças ou nos dê uma sensação permanente de completude.
O outro não existe para ocupar todos os lugares vazios da nossa vida.
E nós também não existimos para ocupar todos os lugares vazios da vida de alguém.
Uma relação amorosa possível precisa comportar a falta, a diferença e a alteridade.
Isso significa reconhecer:
eu não sou tudo para você.
você não é tudo para mim.
E isso não diminui o amor.
Ao contrário.
Pode ser justamente o que permite que duas pessoas se encontrem sem precisar desaparecer uma dentro da outra.
Quando amar significa desaparecer
Existe uma diferença importante entre compromisso e apagamento.
Relacionamentos exigem negociação, concessões, cuidado e responsabilidade.
Mas uma coisa é construir uma vida compartilhada.
Outra é precisar abandonar a própria identidade para continuar sendo amado.
Quando você precisa abrir mão constantemente dos seus limites, dos seus projetos, das suas amizades, da sua autonomia, dos seus desejos ou da própria voz para preservar uma relação, talvez seja importante perguntar:
O que está sendo preservado: a relação ou o medo de perdê-la?
Porque amar alguém não deveria exigir que você desaparecesse.
O amor pode pedir mudanças.
Pode pedir amadurecimento.
Pode exigir responsabilidade.
Mas não deveria exigir que você deixe de existir como sujeito.
Por que saber não é suficiente?
É comum ouvir:
“Você sabe que precisa sair.”
“Você sabe que essa relação faz mal.”
“Então por que continua?”
Essa pergunta parece simples, mas ignora a complexidade do inconsciente.
Saber não é necessariamente conseguir.
Podemos compreender racionalmente um padrão e continuar repetindo-o.
Podemos reconhecer que uma relação nos machuca e ainda assim sentir uma enorme dificuldade de nos separar.
É justamente por isso que o processo terapêutico não se resume a oferecer conselhos.
A questão não é simplesmente dizer:
“Você precisa terminar.”
É investigar:
O que essa relação representa para você?
O que você está tentando encontrar nesse outro?
O que se repete na sua história?
O que significa ser escolhida?
O que você acredita que precisa fazer para merecer amor?
Essas perguntas podem abrir caminhos que uma decisão puramente racional não consegue alcançar.
Responsabilização não é culpa
Falar sobre padrões repetitivos não significa responsabilizar a pessoa pela violência que sofreu.
Culpa e responsabilização são coisas diferentes.
Não somos culpados pela maneira como fomos tratados.
Não somos culpados pelo abandono que vivemos.
Não somos culpados pela violência que alguém praticou contra nós.
Mas, ao longo do processo de elaboração, podemos começar a nos perguntar o que fazemos com aquilo que vivemos.
É aí que a responsabilização subjetiva aparece.
Não como acusação.
Mas como possibilidade.
A pergunta deixa de ser:
“Por que sempre fazem isso comigo?”
E começa, pouco a pouco, a se transformar em:
“O que está se repetindo nas minhas escolhas e no meu modo de me colocar nas relações?”
Essa mudança de pergunta pode ser profundamente transformadora.
Talvez você não esteja pedindo demais
Existe uma cultura que ensina muitas pessoas a duvidarem das próprias necessidades.
Você pede atenção e ouve que está carente.
Pede respeito e ouve que está exigindo demais.
Pede reciprocidade e ouve que está pressionando.
Pede clareza e ouve que está criando problemas.
Até que, pouco a pouco, começa a acreditar que desejar uma relação saudável é pedir demais.
Mas talvez você não esteja pedindo demais.
Talvez esteja pedindo no lugar errado.
Talvez esteja tentando obter de uma determinada pessoa aquilo que ela não está disposta ou não é capaz de oferecer.
E reconhecer isso também é uma forma de cuidado.
O amor não precisa custar a própria identidade
Talvez amadurecer no amor não seja encontrar alguém que finalmente nos faça sentir completos.
Talvez seja poder estar com alguém sem precisar abandonar a si mesmo para ser escolhido.
O amor não precisa ser uma prova permanente de merecimento.
Não deveria ser necessário sofrer para provar que ama.
Não deveria ser necessário aceitar migalhas para não ficar sozinho.
E talvez uma das perguntas mais importantes diante de uma relação não seja apenas:
“Essa pessoa me ama?”
Mas:
“Quem eu preciso deixar de ser para continuar sendo amado por ela?”
Quando uma relação exige que você desapareça para existir, talvez seja importante olhar para além daquela relação.
Talvez exista ali uma história que precisa ser escutada.
Um padrão que precisa ser compreendido.
Uma falta que precisa ser elaborada.
Uma posição subjetiva que pode, pela primeira vez, ser questionada.
Deixar de aceitar migalhas não significa exigir perfeição.
Significa não precisar mais negociar a própria dignidade para receber amor.
E talvez seja esse um dos movimentos mais importantes de uma análise: não aprender a escolher a pessoa perfeita, mas tornar-se capaz de fazer escolhas diferentes quando aquilo que antes parecia familiar já não combina com aquilo que você deseja construir para si.
Quando procurar terapia?
Se você percebe que repete relações nas quais precisa insistir, esperar, provar seu valor, tolerar desvalorização ou aceitar menos do que gostaria, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender o que sustenta esses padrões.
Não se trata apenas de descobrir por que você escolhe determinadas pessoas, mas de compreender o lugar que você ocupa nessas relações e quais outras possibilidades podem surgir quando aquilo que antes era inconsciente começa a ser elaborado.
Vanessa Lima — Psicóloga e Psicanalista
Atendimento psicológico online.
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