
Ela aprendeu cedo a pedir desculpa por existir.
Desculpa por falar demais.
Desculpa por sentir fundo.
Desculpa por ocupar espaço.
Quando se olhava no espelho, não via exatamente um rosto — via perguntas.
Será que estou exagerando?
Será que sou demais?
Será que do jeito que sou é errado?
Ninguém nunca disse isso de forma direta.
Nunca houve um grito, um xingamento claro, uma agressão visível.
Era pior.
Eram risos curtos quando ela se empolgava.
Silêncios longos quando ela se posicionava.
Olhares que escorregavam quando ela mostrava alegria.
Frases ditas como cuidado, mas entregues como corte:
— Você é sensível demais.
— Você leva tudo para o coração.
— Assim fica difícil conviver com você.
Com o tempo, ela começou a se editar.
Diminuía o tom da voz.
Escolhia melhor as palavras.
Escondia partes inteiras de si.
Chamou isso de maturidade.
Mas era abandono.
A autoestima dela não desapareceu de uma vez.
Foi sendo moldada por mãos alheias, pequenas pressões diárias, ajustes sutis.
Ela não se odiava — apenas não se reconhecia mais.
Até que um dia, cansada de se sentir errada sem saber por quê, parou.
Parou para observar.
Percebeu que toda vez que se sentia pequena, alguém tinha acabado de invalidar um sentimento.
Que toda vez que duvidava de si, alguém havia plantado uma dúvida “inofensiva”.
Que aquela voz dura dentro dela… não era originalmente dela.
Foi um choque suave, mas definitivo.
Ela entendeu:
o problema não era quem ela era,
mas o ambiente que a ensinou a se encolher.
E então fez algo simples — e revolucionário.
Passou a se olhar com o mesmo carinho que oferecia aos outros.
Passou a se defender internamente quando vinha a autocrítica automática.
Passou a nomear o que antes era confuso: isso é uma agressão sutil, isso não me define, isso não é amor.
Ela não se tornou outra pessoa.
Não ficou mais dura.
Não perdeu a sensibilidade.
Ela se libertou da necessidade de se moldar para caber.
Hoje, quando se olha no espelho, não vê mais perguntas.
Vê presença.
E entende, finalmente, que autoestima não nasce da aprovação —
nasce do direito de ser inteira, mesmo quando o mundo prefere versões menores.





