
Aprendo muito com os livros que leio, com os filmes que assisto, com as músicas que escuto… Recentemente, fui pego de alma e corpo pelo filme Serviço de Entregas da Kiki, sobre uma bruxinha que se aventura a morar sozinha depois de completar 13 anos. Tudo é encantador: as paisagens valorizam cada momento silencioso e bucólico das mil e uma fantasias de Hayao Miyazaki. A vivacidade de cada detalhe — desde o cabelo dos personagens sendo balançado pelo vento até as cenas estonteantes de culinária que despertam a fome — é realmente confortadora, aconchegante.
Pois bem, essa história da bruxinha me chamou atenção no momento mais crítico dela: a perda da magia de Kiki. Isso acontece, ironicamente, logo após um convite de um amigo dela para interagir com outras crianças. Ela, a princípio, fica desconfortável e irritada e, depois, quando sozinha em seu quarto, sente um desânimo pesado. Acaba não conseguindo mais entender o que o gatinho Jiji fala, nem consegue mais voar com a vassoura. A angústia toma conta, interrompe o serviço de entregas e ela fica um tempo desanimada.
Isso me fez sentir e pensar em como, quando não nos abrimos aos convites que a vida nos faz — para as relações com o mundo e com as pessoas — , a nossa magia cansa, cessa. O combustível do nosso ser parece ser tudo aquilo que é permeado pelo fluxo da vida. Virgínia Woolf, em A Morte da Mariposa, relata como há uma espécie de “gota de pura vida” na mariposa que, desvairadamente, tenta se juntar à natureza fora da prisão de sua redoma e, consequentemente, a falta disso parece levá-la à morte. É como se tudo na vida fosse um convite, ou um veículo, à melhor expressão do nosso ser — as coisas ruins e as coisas boas. A troca, por sua vez, é por onde recarregamos nosso coração e nossa alma.
“Gulls in the sky and in my blue eyes,
You know it feels unfair.
There’s magic everywhere.”
(Gaivotas no céu e em meus olhos azuis,
você sabe que é injusto.
Há magia em todos os lugares.)
A única coisa que faz a magia de Kiki voltar a funcionar é o reencontro com sua amiga artista, que a faz tirar uma folga do trabalho e ir descansar na cabana do bosque, longe de tudo e de todos. Quando vê o quadro que a amiga fez para ela — uma mulher, um unicórnio e um touro — , fica maravilhada. É como se fosse um lembrete das forças internas de Kiki: a alegria, a bondade e a doçura do unicórnio, e a presença, a obstinação e a força do touro. É um reencontro com essas forças tão valiosas. São figuras selvagens, da natureza. A magia é a natureza que flui em tudo isso.
Tudo isso me trouxe ao mesmo ponto que Freud já falava: precisamos amar para não adoecer. Precisamos de trocas com o mundo. É assim que a magia acontece — uma troca. Uma troca da boa intenção do coração e da disposição de ser aquilo que se pede ao mundo. Devo oferecer ao mundo aquilo que solicito. De alguma forma ou de outra, entenderemos isso no momento certo — nem o narrador entende completamente, mas há alguma voz dentro dele que afirma isso veementemente.
Quem sou eu?

Julio Cesar Borges
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04/87940
Atendimento:
Presencial, Online
Cuidar da saúde emocional é também uma forma de se escolher.
Sou psicólogo e acredito que cada pessoa tem sua própria história, suas dores e seus desafios.
Meu compromisso é oferecer escuta, acolhimento e respeito, construindo um espaço seguro onde você possa falar sobre o que sente, compreender suas emoções e encontrar novos caminhos para lidar com suas questões.
Você não precisa enfrentar tudo sozinho(a). Cuidar de si também é um ato de coragem.
Valor da Sessão / Tempo de duração
R$ 80,00
/
50 minutos
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