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A mulher que dá conta de tudo: quando a exigência de ser forte se transforma em sofrimento

Uma reflexão psicanalítica sobre a sobrecarga feminina, a autoexigência e a possibilidade de reencontrar a si mesma.

Oct 20, 2026

Bianca Ribeiro Terra

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Mulher

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Existe uma forma de sofrimento feminino que nem sempre é reconhecida. Ela pode estar escondida atrás de uma carreira bem-sucedida, de uma agenda lotada, de uma família que funciona e de uma mulher que parece capaz de resolver qualquer problema.

É a mulher que trabalha, cuida, organiza, antecipa necessidades, acolhe outras pessoas e tenta corresponder às expectativas que recaem sobre ela. Mesmo quando está exausta, continua. Quando precisa descansar, sente culpa. Quando não consegue atender a todas as demandas, questiona a própria competência.

Por fora, pode parecer força. Por dentro, pode existir um conflito silencioso entre aquilo que ela deseja para si e aquilo que acredita que precisa ser.

Mas será que toda essa cobrança nasceu nela?

Quando as expectativas sociais passam a fazer parte de nós

A psicanalista Karen Horney oferece contribuições importantes para pensar a relação entre cultura, subjetividade e sofrimento psíquico. Pioneira na crítica a determinadas concepções tradicionais da psicanálise, Horney questionou a tendência de tomar a experiência masculina como referência universal para compreender o desenvolvimento psicológico humano.

Em seus trabalhos, destacou a importância de considerar os fatores culturais e sociais na constituição da subjetividade, especialmente quando se trata da experiência das mulheres (Silva; Ferrari, 2022).

Essa perspectiva permite formular uma pergunta relevante para a clínica contemporânea: o quanto do sofrimento de uma mulher está relacionado não apenas à sua história individual, mas também às expectativas sociais que aprendeu a reconhecer como naturais?

A mulher profissional, por exemplo, pode encontrar-se diante de exigências contraditórias. Espera-se que seja competente, produtiva e assertiva, mas também acolhedora, disponível e cuidadosa. Precisa demonstrar segurança sem parecer ameaçadora, sensibilidade sem ser considerada frágil e ambição sem ser julgada excessivamente competitiva.

Essas expectativas não atingem todas as mulheres da mesma maneira. Classe social, raça, condições de trabalho, responsabilidades familiares e acesso a redes de apoio modificam significativamente essa experiência.

Ainda assim, quando exigências sociais reiteradas passam a integrar a maneira como alguém avalia a si mesma, torna-se importante investigar como elas participam de seus conflitos e de sua relação com o próprio desejo.

A mulher que precisa provar o próprio valor

Nem sempre a autoexigência aparece como uma cobrança explícita. Às vezes, ela se manifesta na dificuldade de delegar, na necessidade de antecipar todos os problemas ou na sensação persistente de que nunca se fez o suficiente.

A pessoa pode conquistar reconhecimento profissional e, mesmo assim, experimentar a impressão de estar sempre em dívida. Cada resultado alcançado se transforma rapidamente em uma nova obrigação. O descanso parece merecido apenas depois que todas as tarefas terminam — algo que, na prática, raramente acontece.

Sob uma perspectiva psicanalítica, esse funcionamento merece ser investigado para além dos comportamentos visíveis. É importante compreender a história dessa mulher, os vínculos que marcaram sua trajetória, as formas pelas quais aprendeu a obter reconhecimento e os significados que atribui ao sucesso, à dependência, ao erro e à necessidade de ajuda.

Em diálogo com o pensamento de Horney, podemos investigar como determinados ideais de feminilidade e de realização pessoal participam da construção de uma imagem de si que parece exigir desempenho constante.

Isso não significa que toda mulher sobrecarregada apresente um funcionamento neurótico, nem que a origem de seu sofrimento esteja exclusivamente em sua vida psíquica. Condições materiais, ambientes profissionais hostis, desigualdade na divisão do trabalho doméstico e falta de suporte também precisam ser considerados.

A escuta clínica não deve transformar problemas sociais em falhas individuais. Deve permitir que a mulher reconheça tanto as condições externas que a sobrecarregam quanto os modos pelos quais aprendeu a responder a elas.

Quando a cobrança externa se transforma em uma voz interna

Uma das questões mais delicadas da sobrecarga é que, mesmo quando as circunstâncias permitem uma pausa, a mente pode continuar funcionando como se houvesse uma emergência.

A mulher termina o expediente, mas continua pensando nas tarefas pendentes. Senta-se para descansar e se lembra de algo que deveria ter feito. Recebe ajuda, mas sente necessidade de compensá-la. Diz não a uma solicitação e passa horas justificando mentalmente sua decisão.

Nesses momentos, vale perguntar: de quem são as exigências que continuam sendo obedecidas, mesmo quando ninguém está cobrando diretamente?

Essa pergunta não tem uma resposta universal. Em cada história, pode haver experiências familiares, mensagens culturais, relações afetivas e situações profissionais que contribuíram para formar determinadas expectativas sobre o que significa ser uma mulher competente, responsável ou digna de reconhecimento.

O trabalho de Horney ajuda a sustentar uma crítica à naturalização de padrões culturais como se fossem características psicológicas inevitáveis das mulheres. Sua contribuição permite pensar que aquilo que uma sociedade considera feminino ou desejável não deve ser automaticamente tratado como expressão de uma natureza imutável (Silva; Ferrari, 2022).

Na clínica, essa reflexão abre espaço para investigar a diferença entre responsabilidade e obrigação permanente; entre cuidar e se anular; entre desejar realizar algo e sentir que precisa realizá-lo para merecer reconhecimento.

O objetivo não é abandonar compromissos ou desconsiderar as necessidades de outras pessoas. É compreender quando a responsabilidade deixa de ser uma escolha possível e passa a funcionar como uma exigência da qual a mulher não consegue se autorizar a sair.

O esgotamento não é uma medida de competência

Em uma cultura que frequentemente valoriza a produtividade e a disponibilidade contínua, o cansaço pode ser interpretado como prova de dedicação. A mulher que suporta muito é admirada; aquela que estabelece limites pode ser vista como pouco comprometida.

Essa lógica merece ser questionada.

O esgotamento não comprova competência, assim como a capacidade de suportar sofrimento não determina o valor de uma pessoa.

É importante distinguir, contudo, o sofrimento psíquico associado à sobrecarga do diagnóstico de burnout. O burnout é um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado com sucesso, conforme a classificação da Organização Mundial da Saúde. Não deve ser diagnosticado apenas pela presença de cansaço ou de autocobrança.

Quando há exaustão persistente, alterações importantes no sono, dificuldade de concentração, perda de interesse ou prejuízo no funcionamento cotidiano, uma avaliação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais cuidados são necessários.

A psicoterapia não substitui mudanças em condições de trabalho injustas ou uma distribuição mais equitativa das responsabilidades. Ela pode, entretanto, oferecer um espaço para elaborar conflitos, reconhecer limites, compreender padrões relacionais e construir outras possibilidades de posicionamento diante das exigências da vida.

O que a psicanálise pode oferecer à mulher sobrecarregada?

A psicoterapia de orientação psicanalítica não consiste em ensinar uma mulher a organizar melhor sua agenda para que consiga suportar ainda mais tarefas.

Seu propósito não é aperfeiçoar a capacidade de adaptação a qualquer custo, mas oferecer condições para que a pessoa investigue o sentido de seu sofrimento e reconheça aspectos de sua experiência que talvez ainda não consiga compreender com clareza.

No pensamento de Horney, a saúde psíquica está relacionada à possibilidade de maior liberdade subjetiva para desenvolver as próprias capacidades, em vez de simplesmente se ajustar aos padrões de normalidade estabelecidos por uma cultura (Silva; Ferrari, 2022).

Essa perspectiva permite pensar a terapia como um espaço em que a mulher pode examinar perguntas que a rotina costuma silenciar:

  • O que realmente desejo, para além do que esperam de mim?
  • Por que sinto culpa quando priorizo minhas necessidades?
  • O que imagino que aconteceria se eu deixasse de corresponder a todas as expectativas?
  • Quais responsabilidades são minhas e quais assumi por medo de decepcionar?
  • Como posso construir relações nas quais o cuidado não dependa da minha disponibilidade ilimitada?

Não se trata de responder rapidamente a essas perguntas ou de substituir antigas exigências por novas regras de comportamento. Trata-se de criar condições para que elas sejam elaboradas a partir da singularidade de cada história.

Uma mulher pode descobrir que precisa renegociar responsabilidades, rever relações, reconhecer uma raiva que aprendeu a silenciar ou admitir desejos que durante muito tempo pareceram incompatíveis com a imagem que construiu de si mesma.

Outra pode precisar elaborar perdas, conflitos familiares ou experiências de desvalorização. Não existe uma trajetória única para compreender a sobrecarga feminina.

É justamente por isso que a escuta clínica não deve partir de respostas prontas.

Você não precisa esperar chegar ao limite para procurar ajuda

Muitas mulheres procuram psicoterapia quando já não conseguem manter o ritmo habitual. Outras chegam porque perceberam que, apesar de todas as conquistas, alguma coisa importante ficou para trás: o prazer, a espontaneidade, o descanso, a intimidade ou a sensação de estar verdadeiramente presentes na própria vida.

Não é necessário esperar que o sofrimento se torne insuportável para buscar um espaço de escuta.

A terapia pode ser uma oportunidade para compreender como você chegou até aqui, quais exigências continuam organizando suas escolhas e que possibilidades podem surgir quando sua própria experiência passa a ser considerada.

Talvez você não consiga mudar todas as circunstâncias de uma vez. Talvez existam responsabilidades que não podem ser simplesmente abandonadas. Ainda assim, compreender o que acontece com você pode ser um passo importante para construir maneiras menos dolorosas de viver essas responsabilidades.

A pergunta não precisa ser apenas: como vou dar conta de tudo?

Pode começar a ser: por que acredito que preciso dar conta de tudo, e o que acontece comigo quando tento?

Essa mudança de pergunta não resolve automaticamente o sofrimento. Mas pode abrir espaço para uma relação mais consciente com suas necessidades, seus limites e seus desejos.

A hora de olhar para si não precisa ser o momento em que você já não consegue continuar. Pode ser o momento em que percebe que sua vida também precisa incluir você.

Sobre a autora

Bia Zem — Psicóloga clínica e psicanalista.

Atendimento psicológico individual e de casais, com escuta voltada à singularidade, aos vínculos e aos conflitos que atravessam a experiência humana.

Para informações sobre atendimento, entre em contato pelos canais profissionais.

 

 

Referências bibliográficas

SILVA, Larissa Ramos da; FERRARI, Andrea Gabriela. Psicanálise e feminismo em Karen Horney: a crítica ao referencial masculino. Revista Subjetividades, v. 22, n. 3, e12759, 2022. DOI: https://doi.org/10.5020/23590777.rs.v22i3.e12759.

AMORIM, Patrícia Mafra de. Karen Horney, o feminismo e a feminilidade: um desmentido na história da psicanálise. 2021. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica) — Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases. Disponível em: https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases. Acesso em: 20 out. 2026.

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Viviane dos Santos Cavalari

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Sou psicóloga de orientação analítica (junguiana) e dedico minha escuta a acompanhar pessoas em suas jornadas de redescoberta, transformação e reencontro consigo mesmas.

Entendo a terapia não como um lugar de julgamentos ou de fórmulas prontas, mas como um espaço seguro de travessia. Na perspectiva junguiana, não olhamos para a sua dor, ansiedade, crises ou angústias apenas como sintomas a serem eliminados a qualquer custo — mas como convites do seu inconsciente para olhar para aquilo que precisa de atenção, cuidado e integração.

Valor da Sessão / Tempo de duração

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