
Muitas pessoas chegam à terapia com uma pergunta que costuma vir acompanhada de frustração:
“Por que eu faço isso comigo?”
Elas adiam projetos importantes.
Estragam relações que desejavam manter.
Desistem quando algo começa a dar certo.
Ou se colocam repetidamente em situações que as fazem sofrer.
À primeira vista, parece falta de disciplina, desorganização ou até desinteresse. Mas, na maioria das vezes, a autossabotagem não nasce da preguiça. Ela nasce de conflitos psíquicos. Algo dentro da pessoa deseja avançar. Outra parte teme profundamente o que pode acontecer se isso realmente der certo.
Existe uma ideia muito difundida de que, se alguém realmente quisesse algo, simplesmente faria. Mas o psiquismo humano não funciona assim. Desejar algo conscientemente não significa que todas as partes internas estão de acordo. Muitas vezes existem forças opostas atuando ao mesmo tempo: Uma parte quer mudar. Outra quer manter tudo exatamente como está. E essa segunda parte não é irracional — ela está tentando proteger algo.
Na clínica, a autossabotagem frequentemente aparece como uma tentativa inconsciente de evitar experiências que, em algum momento da história da pessoa, foram dolorosas. Por exemplo:
Fracassar pode ser doloroso.
Mas ser visto, às vezes, pode ser ainda mais assustador.
Ter sucesso pode significar:
ser criticado,
ser invejado,
ser cobrado,
ser exposto.
Para alguém que cresceu em ambientes onde o erro era punido, a visibilidade era perigosa ou o amor era instável, avançar pode ativar memórias emocionais muito antigas. Então o psiquismo encontra uma saída silenciosa: impedir que aquilo aconteça.
A autossabotagem costuma surgir em momentos de transição:
um novo trabalho,
um relacionamento importante,
um projeto pessoal,
uma decisão que muda o rumo da vida.
Externamente, tudo parece caminhar bem. Internamente, algo começa a produzir tensão.
A pessoa procrastina.
Esquece compromissos.
Se desorganiza.
Cria conflitos.
Perde oportunidades.
E depois vem a culpa. Mas o comportamento não é aleatório. Ele está respondendo a um conflito interno que ainda não foi compreendido.
Outro aspecto importante é que mudar pode significar romper com identidades antigas.
Algumas pessoas cresceram sendo:
a responsável,
a que não erra,
a que resolve tudo,
a que não incomoda,
a que nunca se destaca.
Quando surge uma oportunidade que exige sair desse lugar, algo no psiquismo reage. Porque mudar também significa deixar para trás formas antigas de pertencimento. E isso pode ser vivido como risco.
Muitas vezes, a autossabotagem também está ligada a uma voz interna muito dura.
Uma voz que diz:
“Não vai dar certo.”
“Você não é capaz.”
“É melhor nem tentar.”
“Uma hora vão descobrir que você não é tudo isso.”
Essa crítica não surge do nada. Ela costuma carregar ecos de experiências passadas — críticas recebidas, expectativas excessivas, comparações ou rejeições. Com o tempo, essas vozes passam a operar dentro da própria pessoa.
Embora cause sofrimento, a autossabotagem raramente é um ato de destruição consciente. Na maioria das vezes, ela é uma tentativa — ainda que desajeitada — de proteger o sujeito de algo que ele ainda não conseguiu elaborar. Por isso, lutar contra si mesmo nem sempre resolver. Antes de tentar eliminar o comportamento, é importante perguntar: O que em mim tem medo disso dar certo?
Essa pergunta muda completamente a forma de olhar para o problema.
Na psicoterapia, a autossabotagem deixa de ser vista apenas como erro ou fraqueza.
Ela passa a ser compreendida como uma linguagem do psiquismo.
Um sinal de que existem conflitos, medos e histórias que ainda precisam ser escutados.
Quando essas partes ganham espaço para aparecer, algo começa a mudar.
Não porque a pessoa passa a se cobrar mais.
Mas porque passa a se entender melhor.
Superar a autossabotagem não significa se tornar alguém perfeito, produtivo ou sem medo. Significa aprender a reconhecer quando algo dentro de você está tentando interromper o caminho — e se aproximar disso com curiosidade, não apenas com crítica. Muitas vezes, aquilo que parece um obstáculo é também um convite para compreender partes da própria história. Equando essa compreensão aparece, o movimento deixa de ser uma luta contra si e passa a ser um processo de integração.
No fundo, a autossabotagem não fala sobre fraqueza. Ela fala sobre histórias, medos e experiências que ainda pedem compreensão. E, quando essas partes encontram espaço para existir, algo importante começa a acontecer: o sujeito deixa de lutar contra si mesmo e passa, aos poucos, a se tornar aliado da própria vida.
Venha se conhecer, a psicoterapia pode ser esse local de compreensão dos seus conflitos inconscientes que impedem seu desenvolvimento pessoal, relacional e emocional.
Abraço,
Milena Schmitt Moura
Psicóloga Clínica| CRP 07/41927





