
Em um cenário onde o burnout ganha cada vez mais espaço, sendo
resultado de exaustão intensa vinculada ao ambiente de trabalho, em um mundo
neoliberal, onde a performance é indispensável para o crescimento profissional,
você provavelmente já se perguntou: como crescer profissionalmente sem me
esgotar?
A pergunta é legítima. Mas ela carrega, embutida, uma suposição
que vale examinar antes de qualquer resposta: a de que crescer e se preservar
são forças opostas, e que a única saída seria encontrar o ponto exato de
equilíbrio entre elas — como se fosse uma questão de dosagem.
Na prática clínica, quase nunca é.
O que o esgotamento é, tecnicamente
Vale começar pelo que a literatura diz, porque a palavra
“burnout” virou sinônimo de cansaço e perdeu precisão.
A Organização Mundial da Saúde inclui o burnout na CID-11 não
como doença ou transtorno mental, mas como fenômeno ocupacional: uma síndrome
que resulta de estresse crônico no trabalho que não foi manejado com sucesso. A
definição se organiza em três dimensões:
Exaustão — sensação persistente de esgotamento de energia,
que não passa com uma noite de sono nem com um fim de semana.
Distanciamento mental do trabalho — negativismo ou cinismo
em relação àquilo que se faz. Um afastamento interno, mesmo estando presente
todos os dias.
Redução da eficácia profissional — a percepção de que o
rendimento caiu, de que as tarefas custam mais do que custavam.
Repare em dois detalhes dessa definição, porque eles mudam tudo.
O primeiro: o burnout está atrelado ao contexto de trabalho, e
não a um traço de personalidade. Não é uma classificação sobre quem você é, é
uma descrição do que uma relação prolongada com determinado ambiente produziu.
O segundo: a definição fala em estresse crônico que não foi
manejado com sucesso — e o manejo, aqui, não é responsabilidade apenas do
trabalhador. É também da organização, da carga, da liderança, do que se cobra e
de como se cobra.
Os sinais aparecem bem antes do colapso
Poucas pessoas chegam à terapia dizendo “acho que estou em
burnout”. Elas chegam dizendo que estão estranhas, impacientes, sem paciência
para coisas que antes não incomodavam.
O que costuma aparecer antes:
•
O domingo à noite deixa de ser descanso e vira
antecipação da segunda
•
Irritabilidade com pessoas que não têm nada a ver com o
trabalho, especialmente em casa
•
Dificuldade de desligar: o corpo sai do expediente, a
cabeça continua lá
•
Sono que não repõe, ou que só chega tarde demais
•
Uma sensação surda de que nada do que se entrega é
suficiente
•
E o pensamento mais comum de todos: “só preciso
aguentar até as férias”
Esse último merece atenção, porque ele revela a lógica que
sustenta o problema. Férias interrompem a exposição, mas não modificam nada do
que produz o desgaste. Por isso é tão frequente a pessoa voltar descansada e,
em duas semanas, estar exatamente onde estava.
Por que a solução da produtividade costuma piorar
Quando alguém percebe que está no limite, a primeira reação quase
sempre é buscar método: um aplicativo novo, acordar mais cedo, organizar melhor
a agenda, aprender a render mais em menos tempo.
O problema é que essa resposta trata o esgotamento como uma falha
de otimização. Ela aceita a premissa de que a conta fecharia se você fosse mais
eficiente — e, com isso, adiciona mais uma exigência a alguém que já está no
limite das exigências.
Não é raro que a pessoa saia dessa tentativa se sentindo pior.
Além de exausta, agora também incompetente por não ter conseguido se organizar
o bastante.
O que a terapia examina
A Terapia Cognitivo-Comportamental trabalha a partir da relação
entre o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos. No caso do esgotamento
profissional, alguns pontos aparecem com frequência.
As regras internas.
Muita gente opera segundo regras que
nunca escolheu conscientemente: “se eu recusar, vão achar que não dou conta”,
“descansar antes de terminar tudo é preguiça”, “meu valor é o que eu entrego”.
Essas regras funcionam em silêncio e são exigentes ao ponto de nenhum
desempenho satisfazê-las.
A autocobrança.
Não confundir com padrão elevado. Padrão
elevado orienta o trabalho; autocobrança pune quem trabalha. A diferença
aparece no que acontece depois de um erro pequeno.
A dificuldade de estabelecer limites.
Dizer não gera
desconforto, e o desconforto é evitado aceitando mais. Cada aceite alivia no
curto prazo e aumenta a carga no longo. Em terapia, isso se trabalha de forma
gradual e concreta, e não com força de vontade.
A recuperação, e não só o descanso.
Descansar é parar.
Recuperar é restabelecer recursos, e envolve desligamento mental, controle
sobre o próprio tempo e atividades que não sejam apenas ausência de trabalho.
Uma noite rolando o celular na cama é parada, mas raramente é recuperação.
Uma parte honesta
Existe um limite importante nisso tudo, e ele precisa ser dito
com clareza: nem todo esgotamento se resolve individualmente.
Ambientes com cobrança desproporcional, metas inatingíveis,
liderança hostil ou assédio adoecem pessoas saudáveis. Nesses casos, tratar o
sofrimento como se fosse um déficit pessoal de resiliência é, além de
incorreto, mais uma cobrança sobre quem já está sobrecarregado.
O que a psicoterapia oferece nessas situações não é adaptação a
qualquer custo. É clareza para distinguir o que é seu do que é do ambiente,
recursos para se proteger enquanto a situação existe, e condições para decidir
com lucidez — inclusive a decisão de sair, quando for esse o caminho.
Voltando à pergunta
Crescer profissionalmente sem se esgotar não depende de encontrar
a dose certa de sacrifício. Depende de examinar as regras que você está
seguindo sem ter escolhido, reconhecer os sinais antes que virem colapso, e
conseguir separar o que é exigência do trabalho do que é exigência que você faz
a si mesmo.
Isso raramente se enxerga sozinho, justamente porque essas regras
parecem óbvias por dentro.
Este texto tem caráter informativo e não substitui avaliação
profissional. Se você se reconheceu em boa parte do que leu, conversar com um
psicólogo pode ajudar a entender o que está acontecendo e o que fazer com isso.
Os atendimentos são realizados de forma online.
Daniel Henrique — Psicólogo Clínico — CRP 09/22493
Quem sou eu?

Eduarda Regina Gonçalves Pereira
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Nem sempre é fácil entender o que estamos sentindo. Às vezes, a ansiedade, as inseguranças, os relacionamentos ou os desafios da vida parecem difíceis demais para enfrentar sozinho(a).
Sou psicóloga, com atuação clínica baseada na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), e acredito na terapia como um espaço de acolhimento, escuta e construção conjunta.
Meu propósito é caminhar ao seu lado na compreensão de si e na construção de formas mais saudáveis de lidar com aquilo que hoje te faz sofrer.
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