
O preço psicológico de tentar ser sempre "uma boa pessoa"
Existe uma versão de nós que apresentamos ao mundo.
A profissional competente.
A filha compreensiva.
A parceira madura.
A amiga disponível.
A pessoa calma.
Aquela que sempre sabe o que fazer.
Essa versão não é falsa.
Mas também não é inteira.
Porque, para sustentar essa imagem, frequentemente aprendemos a esconder tudo aquilo que acreditamos ser inaceitável.
A raiva.
A inveja.
O ciúme.
A vontade de desistir.
O medo.
A fragilidade.
Não porque essas emoções sejam raras.
Mas porque alguém, em algum momento da nossa história, nos ensinou que elas nos tornariam menos dignos de amor.
O nascimento da sombra
Carl Gustav Jung chamou de sombra tudo aquilo que deixamos de reconhecer em nós mesmos.
Não se trata de um lado "mau" da personalidade.
A sombra é formada por experiências, desejos, emoções e características que foram rejeitados ao longo da vida por parecerem incompatíveis com a imagem que aprendemos a construir sobre quem deveríamos ser.
Muitas vezes, essa aprendizagem começa cedo.
A criança que ouviu que "menina bonita não responde".
O menino que aprendeu que "homem não chora".
Quem cresceu acreditando que precisava ser perfeito para receber carinho.
Quem descobriu que agradar era mais seguro do que contrariar.
Sem perceber, começamos a selecionar quais partes de nós podem existir.
As outras são empurradas para dentro.
O problema é que aquilo que negamos não desaparece.
A psique não funciona como um armário onde guardamos aquilo de que não gostamos.
O que reprimimos continua vivo.
Aparece nas explosões de raiva que parecem desproporcionais.
Na inveja que nos constrange.
Na dificuldade de estabelecer limites.
Na necessidade constante de aprovação.
Nas críticas severas que fazemos aos outros — e que, muitas vezes, dizem muito mais sobre aquilo que recusamos enxergar em nós mesmos.
Quanto mais tentamos sustentar apenas aquilo que consideramos "bom" ou "aceitável", maior tende a ser a distância entre quem somos e quem acreditamos que deveríamos ser.
O perfeccionismo também pode ser uma forma de defesa.
Às vezes, aquilo que chamamos de autoestima elevada é apenas medo de errar.
E aquilo que chamamos de disciplina pode esconder um profundo terror de decepcionar.
Quando qualquer erro ameaça nossa identidade, deixamos de viver para começar a administrar a imagem que os outros terão de nós.
Adaptamo-nos.
Silenciamos.
Escondemos.
Até que já não sabemos mais quais escolhas são realmente nossas.
A busca incessante por aceitação pode, paradoxalmente, nos afastar da autenticidade.
Integrar a sombra não significa agir impulsivamente.
Existe um equívoco comum quando falamos sobre esse tema.
Reconhecer a própria agressividade não significa ser agressivo.
Reconhecer a inveja não significa alimentar a inveja.
Reconhecer o medo não significa ser governado por ele.
Na verdade, quanto menos consciência temos dessas emoções, maior a chance de que elas conduzam nossas escolhas sem que percebamos.
Aquilo que é reconhecido pode ser elaborado.
Aquilo que é negado costuma encontrar outros caminhos para se manifestar.
A psicoterapia não busca transformar você em alguém perfeito.
Ela busca algo muito mais difícil.
Que você consiga sustentar a complexidade de ser humano.
Que possa olhar para si com honestidade suficiente para reconhecer tanto a delicadeza quanto a dureza que existem em você.
Sem idealização.
Sem condenação.
Porque amadurecer não é eliminar as próprias contradições.
É deixar de viver em guerra contra elas.
Talvez o autoconhecimento comece justamente quando abandonamos a necessidade de parecer impecáveis e passamos a nos responsabilizar, com mais gentileza e honestidade, por tudo aquilo que somos. É desse encontro entre luz e sombra que pode surgir uma existência mais autêntica.
Se esse post fez sentido para você, venha marcar uma sessão e conhecer a dualidade que vive no seu emocional.
Abraço,
Milena Schmitt Moura | CRP 07/41927
WhatsApp: (51) 98453-2941





