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Quando a imaginação vira refúgio: o que isso pode significar no borderline e como a DBT pode ajudar

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Oct 21, 2026

Vanessa de Oliveira Carlos Rego

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Saúde mental

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Quando a imaginação vira refúgio: o que isso pode significar no borderline e como a DBT pode ajudar

 

Você imagina conversas em que finalmente é compreendida? Cria histórias nas quais recebe o carinho que sente falta? Ou passa tanto tempo nesses cenários que fica difícil voltar às tarefas do dia?

Antes de julgar essa experiência, precisamos entender o lugar que ela ocupa na sua vida. O que acontece antes de você se refugiar na imaginação? E como você se sente depois?

 

1. O que esse refúgio pode oferecer?

Pense em alguém que, depois de uma discussão, começa a imaginar uma relação em que nunca é rejeitada. Naquele momento, a fantasia pode oferecer acolhimento, segurança ou uma sensação de controle.

Essa é uma possibilidade a ser investigada na terapia, não uma explicação que serve para todo mundo. A mesma experiência pode ter funções diferentes para cada pessoa.

Perguntar “o que encontro nessas histórias que está fazendo falta na minha vida?” pode abrir espaço para compreender necessidades que ainda não conseguiram ser expressas.

 

2.Onde entra o borderline?

O transtorno de personalidade borderline pode envolver emoções intensas, sensibilidade à rejeição, medo de abandono e sensação de vazio. Algumas pessoas também apresentam dissociação. Mas os sintomas variam: criar histórias detalhadas na imaginação não é suficiente para identificar o transtorno. (nimh.nih.gov)

Por isso, precisamos ter cuidado com a ideia de que toda pessoa com borderline “cria mundos paralelos”. Essa expressão pode aproximar o assunto de quem vive algo parecido, mas também pode misturar experiências distintas.

 

3.Imaginação, devaneio e dissociação são a mesma coisa?

Não são sinônimos.

No devaneio, a pessoa fica envolvida em pensamentos, cenas ou histórias imaginadas. Na dissociação, pode haver uma sensação de desconexão de si ou do ambiente.

Algumas pessoas descrevem sentir o próprio corpo distante, observar a si mesmas de fora ou perceber o mundo como se fosse um sonho. Também podem ocorrer falhas de memória que vão além do esquecimento comum. Essas experiências precisam de avaliação para serem compreendidas. (nhs.uk)

Sentir o ambiente como irreal também não significa, necessariamente, acreditar que ele deixou de existir. Essa diferença importa na avaliação.

 

4.Quando isso começa a trazer prejuízos?

Vale observar quando fica difícil interromper os cenários imaginados, quando compromissos são deixados de lado ou quando as relações passam a receber cada vez menos atenção.

Um exemplo possível: a pessoa se sente sozinha, encontra alívio em uma história imaginada e adia uma conversa importante. O problema continua, a solidão aumenta e ela volta a buscar aquele alívio.

Na terapia, investigamos se esse ciclo acontece e o que pode ajudar a mudá-lo, sem transformar o sofrimento em motivo de culpa.

 

5. Como trabalhamos isso com a DBT?

A Terapia Comportamental Dialética une aceitação e mudança. Podemos reconhecer que uma resposta trouxe alívio em algum momento e, ao mesmo tempo, construir alternativas quando ela começa a prejudicar a vida.

Um recurso é a análise em cadeia: olhar, passo a passo, para o que aconteceu antes, durante e depois de um episódio. Esse trabalho ajuda a encontrar momentos em que uma resposta diferente pode ser praticada. (abct.org)

Por exemplo:

  • Situação: uma pessoa importante não respondeu à mensagem.
  • Interpretação: “Ela cansou de mim.”
  • Emoções: medo, tristeza e vergonha.
  • Resposta: passar horas imaginando uma relação sem rejeição.
  • Consequências: alívio no começo, tarefas acumuladas e mais isolamento depois.

Esse é apenas um exemplo. A sequência precisa ser construída a partir da experiência de cada pessoa.

 

6. Quais habilidades podem entrar nesse cuidado?

A DBT trabalha quatro áreas: atenção plena, regulação emocional, tolerância ao mal-estar e habilidades para os relacionamentos. (abct.org)

Nesse contexto, podemos praticar formas de:

  • Perceber o presente: notar quando a atenção se afasta e experimentar maneiras de se reconectar ao ambiente.
  • Reconhecer emoções e interpretações: diferenciar “estou com medo de ser abandonada” de “tenho certeza de que fui abandonada”.
  • Atravessar o desconforto: encontrar recursos para lidar com a dor enquanto uma solução ainda não é possível.
  • Expressar necessidades: pedir acolhimento, esclarecer dúvidas e colocar limites.

As práticas precisam ser ajustadas à pessoa, especialmente quando há dissociação. O objetivo não é forçar alguém a permanecer em uma experiência que está aumentando seu sofrimento.

 

7. O cuidado vai além de interromper a fuga

Também precisamos olhar para a vida que essa pessoa encontra quando retorna: há apoio, descanso, segurança e relações em que ela pode ser ouvida?

O tratamento pode ajudar a ampliar esses espaços e construir formas de enfrentar os problemas cotidianos. Quando há desconexão frequente, falhas de memória ou prejuízos importantes, é necessário avaliar essas experiências de perto.

Você pode começar levando uma pergunta para a terapia: “O que acontece comigo antes de eu sentir que preciso me afastar do que estou vivendo?”

Para aprofundar a leitura — fontes em inglês:

Quem sou eu?
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Viviane dos Santos Cavalari

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Sou psicóloga de orientação analítica (junguiana) e dedico minha escuta a acompanhar pessoas em suas jornadas de redescoberta, transformação e reencontro consigo mesmas.

Entendo a terapia não como um lugar de julgamentos ou de fórmulas prontas, mas como um espaço seguro de travessia. Na perspectiva junguiana, não olhamos para a sua dor, ansiedade, crises ou angústias apenas como sintomas a serem eliminados a qualquer custo — mas como convites do seu inconsciente para olhar para aquilo que precisa de atenção, cuidado e integração.

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