
Por Helder Brito | Psicólogo
Tem dias que a gente acorda e se pergunta: "Pra quê tudo isso?"
Você olha para o teto, ouve o barulho do trânsito lá fora, lembra da rotina que vai se repetir e sente um vazio esquisito no peito. Não é tristeza exatamente. É uma sensação de estranhamento, como se você fosse um ator numa peça de teatro e, de repente, esquecesse o texto e percebesse que o cenário é de papelão.
A filosofia e a psicologia existencial têm um nome para essa sensação: a experiência do absurdo. E se você já sentiu isso, saiba de uma coisa: você não está quebrado. Você está, na verdade, profundamente acordado.
O que é esse tal de "absurdo" e por que ele dói tanto?
Calma, não precisa correr para o dicionário de filosofia. Vou explicar do jeito mais simples possível.
Imagine que você está num quarto escuro procurando um interruptor que nunca existiu. Você passa a mão pela parede, tateia, acha que vai encontrar algo que acenda a luz e te mostre "o sentido da vida". Mas a parede é lisa. Não tem interruptor nenhum.
O absurdo é exatamente esse choque: a colisão entre a nossa necessidade humana de encontrar um sentido e a indiferença silenciosa do universo. O universo não vai te mandar um e-mail dizendo qual é a sua missão. O mundo não tem um plano secreto revelado só para quem se esforça.
Quando a gente percebe isso, dá um frio na espinha. Dá um desespero. Porque se não tem um roteiro pronto, quem vai escrever o resto da história? A resposta existencialista pode assustar num primeiro momento, mas depois ela liberta: Você.
O Desespero Não é o Fim da Linha. É o Começo da Conversa.
A gente foi ensinado a tratar o desespero como um bicho de sete cabeças que precisa ser exterminado com distração, remédio ou frases prontas de autoajuda. Mas e se o desespero for só uma crise de crescimento da alma?
Pensa comigo: Quando um adolescente cresce muito rápido, o corpo dói. Os ossos reclamam. É desconfortável. O desespero existencial é a dor do crescimento da consciência. É a sua mente se dando conta de que aquele mundo de certezas que te venderam ("Estude, case, trabalhe, aposente e seja feliz") não dá conta de explicar a vastidão do que é ser humano.
O filósofo Søren Kierkegaard, que entendia muito de angústia, dizia que o desespero não é o problema. O problema é não se dar conta de que está desesperado. A pessoa que nunca se questiona, que vive anestesiada no piloto automático, essa sim está numa situação muito mais frágil. Quem sente o vazio, quem sente a falta de sentido, já está procurando. Já está a meio caminho andado.
Como Atravessar Isso Sem Perder a Esperança? (Uma Conversa Franco, Sem Mágica)
Não vou te prometer que você vai achar uma fórmula mágica para a felicidade eterna. Isso não existe. Mas existem posturas que tornam a travessia mais humana, mais digna e, acredite, até mais bonita.
Aqui vão algumas provocações que costumo trazer para o consultório:
1. Pare de procurar "O Sentido" (com letra maiúscula). Crie "um sentido" (seu, pequeno, hoje).
Albert Camus, outro gigante nesse assunto, usava o mito de Sísifo. Sísifo foi condenado a empurrar uma pedra montanha acima para vê-la rolar ladeira abaixo, eternamente. Que castigo horrível e sem sentido, né? Mas Camus diz: "É preciso imaginar Sísifo feliz."
Como assim? Porque no momento em que Sísifo aceita a pedra como sua e decide fazer aquilo com dignidade, com os músculos queimando e o vento no rosto, ele vence o absurdo. O sentido não está no topo da montanha (a pedra nunca vai parar lá). O sentido está na caminhada, no suor, no jeito como você empurra a sua pedra hoje.
2. A Beleza das Coisas Pequenas Como Âncora
Se o universo não te dá respostas grandiosas, olhe para as respostas miúdas que a vida oferece. O cheiro do café de manhã. O latido do seu cachorro quando você chega em casa. Uma música que arrepia a pele. O riso solto de um amigo.
A psicologia existencial chama isso de "engajamento no mundo". O antídoto para o vazio existencial não é uma ideia brilhante; é um corpo presente. É sentir o sol na pele e pensar: "Só por esse calorzinho gostoso, já valeu a pena ter acordado hoje."
3. A Revolução de Dizer "Sim" à Vida, Mesmo Ela Sendo Imperfeita
Isso é um ato de coragem. É olhar para o caos, para as contas atrasadas, para as dores do passado, para a incerteza do futuro e, ainda assim, dizer: "Sim. Eu estou aqui. E eu vou viver isso."
Não é resignação passiva ("Ah, a vida é uma droga mesmo"). É uma rebelião ativa. Você não pode controlar se vai chover amanhã, mas pode controlar se vai dançar na chuva ou se vai ficar emburrado dentro de casa. A liberdade mora nessa escolha minúscula.
O Convite Para a Conversa
Esse assunto não se esgota num texto de blog. O desespero e o absurdo são companheiros de jornada de qualquer pessoa que se atreve a pensar sobre a própria existência. A boa notícia é que você não precisa atravessar esse deserto sozinho.
A terapia existencial é exatamente esse espaço: um oásis onde a gente pode olhar para a vastidão do deserto sem fingir que ele não existe, mas também sem ser engolido por ele. É um lugar onde a gente descobre que, embora a vida não tenha um manual, ter com quem conversar sobre a falta de manual já torna tudo muito mais leve e possível.
Se essa conversa tocou você de alguma forma, saiba que minha porta está aberta. Vamos olhar juntos para essa paisagem?





