
O complexo materno originalmente positivo no homem nasce de experiências de cuidado, nutrição e pertencimento que ajudam a formar o corpo, o afeto e o modo de existir. São vivências que estruturam a sensibilidade e favorecem a imaginação. Essa base é valiosa e, muitas vezes, decisiva para o florescimento emocional.
O problema surge quando essa atmosfera não é seguida pela diferenciação necessária. A força que sustentava começa a funcionar como limite. Aquilo que, no início, protegia, passa a impedir o movimento. A positividade inicial se transforma em estagnação.
O caso clínico de Balthasar, apresentado por Verena Kast em Filhas de Pai e Filhos de Mãe, ilustra essa dinâmica. Ele era talentoso, sensível e imaginativo, mas não conseguia transformar potencial em ação. A matriz materna, vivida como um campo de abundância, funcionava como referência absoluta. Qualquer afastamento era sentido como abandono e, por isso, ele evitava escolhas e permanecia preso ao mundo interno.
Quando o complexo materno positivo não é atravessado, surge uma identificação com o infantil. O homem passa a esperar que o mundo o nutra, da mesma forma que a mãe fazia. A autonomia enfraquece e a tolerância à frustração diminui, porque os limites da realidade são percebidos como feridas profundas. Viver deixa de ser encontro com o novo e se torna tentativa contínua de reencontrar a atmosfera original.
Nessa condição, o arquétipo da Mãe ocupa o centro. A vida psíquica perde movimento. A individuação, que exige assumir riscos, suportar perdas e tomar decisões, fica comprometida. No trabalho clínico, a tarefa não é romper com a mãe real, mas transformar a experiência materna em referência simbólica. A maturidade surge quando o homem reconhece a origem e, mesmo assim, se separa dela o suficiente para seguir adiante. Esse deslocamento interno permite que a nutrição inicial continue presente como solo para a própria caminhada.





