
O choro não despencou, ficou ali suspenso.
Ficou suspenso após eu ouvir uma pessoa, após eu ser atravessada por uma dor de quem a falou. O silêncio foi tomando o espaço da sala, eu vi as lágrimas dessa dor de uma violência.
Me perfurou ali, me perfurou porque foi violento, porque realmente doi. Fechei a porta, queria chorar sozinha após ouvir, queria expressar algo, mas ficou aqui guardado, espantado.
Tomei café em casa pensando na minha sensibilidade, neste ouvir que às vezes derruba. Não que ele me tome de inteira, mas tá aqui essa dor. Questionei a minha sensibilidade, queria sentir menos, espantar menos, me sensibilizar menos.
No outro dia chorei, chorei lágrimas de tempos. Que alívio chorar. Pensei que o que escuto me atravessa, perfura e não é para perfurar? Se a minha escuta não é para se espantar, para se humanizar com o humano, ela é para quê?
O incomodo vai vir porque se incomodar é se sensibilizar. Uma escuta não é para isso?
Eu escuto gente, que se emociona como gente. E eu não posso sentir? Sentir como gente também?
Me recuso a normalizar a indiferença. É que aqui tem escuta de gente, tem coração com artéria que pulsa e doi, até porque tem coisa que doi mesmo.
Não tem um ideal de saúde mental, tem o processo de ouvir alguém. Nesse processo tem choro, tem indignação, tem cansaço, tem felicidade, tem angústia, tem o lembrar, tem o querer um colo, tem esperança e tem gente, dos dois lados, tem gente.





