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Você realmente ama essa pessoa?

ou é o que ela significa para você que desperta esse sentimento?

Aug 20, 2026

Flavio Theodoro Polowec Garcia

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Autoconhecimento

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Uma das coisas mais difíceis em um relacionamento é perceber que não nos relacionamos apenas com a pessoa que está diante de nós. Também nos relacionamos com aquilo que imaginamos sobre ela, com aquilo que esperamos, com aquilo que desejamos encontrar e com aquilo que sentimos quando estamos perto dela. Às vezes, nos relacionamos até com aquilo que gostaríamos que ela fosse.

 

Isso não significa que o amor seja falso. Talvez signifique apenas que amar alguém envolve mais complexidade do que simplesmente conhecer suas características e decidir se gostamos delas. Quando nos apaixonamos, podemos construir uma imagem muito particular daquela pessoa. Algumas características são percebidas, outras ganham importância e outras podem ser idealizadas.

 

A literatura sobre relacionamentos íntimos chama atenção para esse fenômeno: a idealização do parceiro não é necessariamente patológica ou prejudicial. Em determinadas condições, perceber o parceiro de maneira positivamente idealizada pode estar associado à satisfação e à manutenção da relação. Então, a questão talvez não seja “Estou idealizando essa pessoa?", mas “Consigo perceber essa pessoa para além daquilo que projetei sobre ela?"

 

O outro também pode se tornar uma tela. Na Psicologia Analítica, Jung atribuiu grande importância ao fenômeno da projeção. Projetar não significa simplesmente “inventar” alguma coisa sobre alguém. Trata-se de um processo pelo qual conteúdos psíquicos que não reconhecemos plenamente como nossos podem ser experimentados como se pertencessem ao outro.

 

Podemos encontrar alguém e sentir uma familiaridade difícil de explicar. Podemos nos sentir profundamente atraídos por determinada característica. Podemos enxergar naquela pessoa uma força, uma sensibilidade, uma liberdade ou uma segurança que parecem exercer sobre nós uma espécie de fascínio. E talvez parte desse fascínio tenha relação com a própria pessoa, mas talvez outra parte diga respeito àquilo que ela constela em nós.

 

Essa distinção é importante porque não significa que “o outro não é nada daquilo que enxergamos". Significa que nossa percepção nunca é completamente separada da nossa própria história. Nós não encontramos o outro a partir de um lugar vazio. Encontramos o outro carregando nossas experiências, desejos, medos, expectativas e conteúdos inconscientes.

 

Às vezes, a pessoa toca alguma coisa que já estava em nós. É possível que determinadas pessoas nos afetem de uma maneira que parece desproporcional ao que efetivamente aconteceu entre nós. Uma distância pequena pode ser vivida como abandono. Uma crítica pode ser sentida como rejeição. Uma demonstração de afeto pode produzir uma sensação de segurança muito maior do que aquela situação, isoladamente, pareceria explicar.

 

Na perspectiva junguiana, podemos pensar que determinadas experiências relacionais podem constelar complexos. Ou seja, a situação presente pode mobilizar conteúdos emocionais que não pertencem exclusivamente ao presente. É por isso que duas pessoas podem ouvir exatamente a mesma frase e experimentá-la de maneiras completamente diferentes. A frase é a mesma, mas a experiência psíquica não é.

 

Talvez seja por isso que, em algumas relações, tenhamos a sensação de estar vivendo algo muito maior do que aquilo que está efetivamente acontecendo. Mas existe outra coisa acontecendo quando nos apaixonamos. Talvez seja justamente por isso que os relacionamentos possam ser tão transformadores.

 

A teoria da expansão do self, desenvolvida por Arthur e Elaine Aron, propõe que os seres humanos possuem uma motivação para ampliar seu senso de si e que os relacionamentos íntimos constituem uma das formas pelas quais isso pode acontecer. Ao nos relacionarmos profundamente com alguém, podemos incorporar novas perspectivas, habilidades, experiências, recursos e até aspectos da identidade do outro à nossa própria experiência de quem somos.

 

Isso ajuda a compreender uma experiência bastante comum: “Depois que conheci essa pessoa, parece que me tornei outra pessoa.” Talvez, em alguma medida, você realmente tenha se tornado. Uma relação pode nos apresentar a lugares que não conhecíamos, pessoas que nunca encontraríamos, experiências que nunca teríamos vivido e aspectos de nós mesmos que ainda não haviam encontrado espaço para existir.

 

Uma revisão publicada em 2025 mostra como essa perspectiva continua sendo desenvolvida pela pesquisa contemporânea sobre relacionamentos, incluindo justamente a maneira como parceiros podem ampliar e transformar o senso de identidade um do outro. Mas aqui aparece um paradoxo interessante. O outro pode nos ajudar a descobrir quem somos — e também pode se tornar alguém que precisamos para sustentar quem acreditamos ser.

 

Quando amar alguém significa precisar que aquela pessoa seja de determinada maneira, talvez seja aqui que algumas relações comecem a se tornar difíceis. Não necessariamente porque deixamos de gostar do outro, mas porque começamos a precisar que ele continue correspondendo à imagem que construímos. A pessoa muda, nós mudamos, a relação muda e aquilo que inicialmente parecia tão perfeito começa a produzir frustração.

 

Às vezes, não estamos sofrendo apenas porque o outro mudou. Estamos sofrendo porque ele deixou de corresponder àquilo que precisávamos que ele representasse. Isso ajuda a compreender por que a desilusão pode ser tão dolorosa. Não perdemos somente uma pessoa, podemos perder também uma fantasia, uma expectativa, uma possibilidade de futuro ou uma determinada versão de nós mesmos.

 

Talvez seja por isso que algumas relações nos transformem tanto. Jung compreendia o desenvolvimento psíquico como um processo no qual o indivíduo vai se tornando mais consciente da própria totalidade. Nesse sentido, uma relação pode ter um papel importante nesse processo. Não porque o outro venha nos completar. Essa ideia é sedutora, mas pode nos colocar em uma posição perigosa.

 

Quando acreditamos que alguém é responsável por completar aquilo que sentimos faltar em nós, podemos transformar o relacionamento em uma espécie de solução para conflitos que são, em parte, nossos. Talvez seja mais interessante pensar de outra maneira: o outro pode nos revelar aquilo que ainda precisamos conhecer em nós mesmos. Aquilo que admiramos, aquilo que invejamos, aquilo que desejamos, aquilo que tememos perder, aquilo que não suportamos, aquilo que esperamos receber. Tudo isso pode se tornar material para reflexão.

 

E é nesse ponto que a relação pode deixar de ser apenas um lugar onde buscamos o outro e tornar-se também um lugar onde encontramos partes de nós mesmos. Então, você ama essa pessoa ou aquilo que ela representa? Talvez a resposta não seja uma coisa ou outra. Você pode amar a pessoa e, ao mesmo tempo, projetar nela aspectos da sua própria psique. Pode existir desejo genuíno e fantasia. Pode existir encontro e idealização. Pode existir o outro real e a imagem que construímos dele.

 

O desafio talvez não seja eliminar completamente essas projeções — algo provavelmente impossível. Talvez seja torná-las mais conscientes. Porque quanto menos percebemos aquilo que colocamos no outro, maior pode ser a distância entre a pessoa que amamos e a pessoa que imaginamos amar. E talvez amadurecer uma relação não seja deixar de idealizar completamente. Talvez seja conseguir olhar para o outro e dizer: “Você não precisa ser aquilo que eu imaginei para continuar sendo alguém que eu escolho conhecer."

 

Talvez amar também tenha alguma coisa a ver com isso. Descobrir, aos poucos, que existe uma pessoa diante de nós que é maior do que a imagem que construímos dela. E que talvez uma das formas mais profundas de amar seja justamente permitir que o outro deixe de ser apenas aquilo que precisamos que ele seja e possa, finalmente, ser quem ele é.

 

 

 

 

Referências

JUNG, C. G. Two Essays on Analytical Psychology. In: The Collected Works of C. G. Jung. Vol. 7. Princeton: Princeton University Press.

ARON, A.; ARON, E. N. Love and expansion of the self: The state of the model. Personal Relationships, v. 3, n. 1, p. 45–58, 1996.

EMERY, L. F.; HUGHES, E. K.; MUISE, A. Self-Expansion Theory: Origins, Current Evidence, and Future Horizons. Social and Personality Psychology Compass, v. 19, 2025.

NIEHUIS, S. et al. Idealization and Disillusionment in Intimate Relationships: A Review of Theory, Method, and Research. Journal of Family Theory & Review, 2011.

MURRAY, S. L. et al. Tempting fate or inviting happiness? Unrealistic idealization prevents the decline of marital satisfaction. Psychological Science, 2011.

KOWAL, M. et al. Partner idealization and perceived partner similarity predict relationship quality across 74 countries. Journal of Research in Personality, v. 122, 2026.

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