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As marcas invisíveis da infância: como a socialização de gênero influencia a mulher adulta

Você aprendeu a ser quem é ou aprendeu a ser quem esperavam que você fosse?

27 oct 2026

Bianca Ribeiro Terra

00:00 / 01:04
Mulher

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Desde a infância, muitas meninas recebem mensagens sobre como devem se comportar, quais emoções podem expressar e o que significa ser uma boa filha, uma boa mulher ou uma pessoa agradável.

Frases como "menina não fala assim", "não seja egoísta", "você precisa agradar" e "não faça escândalo" podem parecer inofensivas. Entretanto, dependendo do contexto e da frequência com que são repetidas, podem participar da construção das crenças que uma mulher desenvolve sobre si mesma, seus desejos e seu lugar nas relações.

Isso não significa que toda menina que escuta essas frases desenvolverá sofrimento psicológico. O importante é compreender como determinadas experiências são vivenciadas e quais significados passam a ter ao longo da vida.

 

O que significa castração simbólica?

 

Na psicanálise, a castração é um conceito teórico que não deve ser confundido com violência física ou com a ocorrência de um trauma psicológico específico.

Em Freud, o conceito participa da formulação sobre o desenvolvimento psicossexual. Na teoria lacaniana, a castração simbólica assume uma formulação própria, relacionada à falta, à linguagem e aos limites do desejo.

O artigo de Couto e Chaves (2009), publicado na revista Psicologia Clínica, discute o trauma sexual e a angústia de castração a partir das contribuições de Freud e Lacan.

Ao abordar as mulheres, podemos utilizar esse referencial como ponto de partida para uma reflexão crítica sobre as normas sociais que restringem a autonomia feminina. Nesse sentido, a expressão "castração simbólica" pode ajudar a problematizar experiências de silenciamento, desvalorização e repressão da expressão pessoal.

Essa articulação, porém, deve ser compreendida como uma interpretação teórica, e não como uma relação causal comprovada entre a educação recebida na infância e as dificuldades emocionais na vida adulta.

 

Quando agradar se torna uma obrigação

 

A socialização de gênero participa da construção das expectativas sobre o comportamento feminino. Em determinados contextos, meninas são incentivadas a ser obedientes, cuidadosas, compreensivas e pouco confrontadoras.

Quando essas expectativas são vivenciadas de maneira rígida, podem gerar conflitos entre aquilo que a pessoa deseja e aquilo que acredita precisar fazer para obter aceitação.

Uma mulher adulta pode, por exemplo, sentir desconforto ao discordar de alguém, culpa ao priorizar suas próprias necessidades ou medo de ser rejeitada quando estabelece limites.

Esses comportamentos não indicam necessariamente a presença de um trauma. Podem estar relacionados a diferentes experiências pessoais, características individuais e condições sociais.

Por isso, mais importante do que procurar uma causa única é investigar como cada mulher construiu sua relação com a aprovação, o conflito, a autonomia e o próprio valor.

 

O que a ciência brasileira nos ajuda a compreender?

 

Machado, Castanheira e Almeida (2021), em estudo qualitativo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, investigaram as interseções entre socialização de gênero e violência contra a mulher por parceiro íntimo.

A pesquisa contribui para a compreensão de como os modelos de comportamento aprendidos nas relações sociais podem participar das experiências relacionais. É importante, contudo, considerar que o estudo envolveu um grupo específico de mulheres que registraram ocorrência por violência, não permitindo generalizar seus resultados para todas as mulheres brasileiras.

O estudo oferece uma oportunidade de reflexão: compreender as experiências femininas exige considerar não apenas as características individuais, mas também os contextos familiares, culturais e sociais em que as relações são construídas.

Isso não significa responsabilizar as famílias por todos os sofrimentos posteriores, nem afirmar que a educação recebida determina o futuro. Significa reconhecer que as experiências de vida podem participar da maneira como interpretamos nossas relações e fazemos escolhas.

 

É possível rever aquilo que aprendemos?

 

A história de uma pessoa influencia sua maneira de compreender o mundo, mas não determina integralmente suas possibilidades futuras.

Na psicoterapia, investigar experiências anteriores pode ajudar a identificar conflitos, compreender padrões de comportamento e reconhecer necessidades que nem sempre encontram espaço nas relações cotidianas.

Algumas perguntas podem iniciar essa reflexão:

  • Tenho dificuldade de dizer não por medo de decepcionar alguém?
  • Sinto culpa quando priorizo minhas necessidades?
  • Consigo expressar discordância sem interpretar isso como uma ameaça à relação?
  • Tenho liberdade para fazer escolhas diferentes das expectativas que outras pessoas construíram para mim?

Essas perguntas não servem para diagnosticar traumas, mas para ampliar a compreensão sobre a própria história.

Compreender como aprendemos a nos relacionar pode ser um passo importante para construir formas mais conscientes de viver, escolher e estabelecer limites.

Na próxima publicação, vamos abordar como as expectativas sociais sobre as mulheres podem se relacionar aos desafios da vida profissional adulta, incluindo a dificuldade de se posicionar, a sobrecarga e o reconhecimento das próprias competências.

 

Referências científicas

 

COUTO, Luiza Vieira; CHAVES, Wilson Camilo. O trauma sexual e a angústia de castração: percurso freudiano à luz das contribuições de Lacan. Psicologia Clínica, v. 21, n. 1, 2009. Disponível na SciELO.

MACHADO, Dinair Ferreira; CASTANHEIRA, Elen Rose Lodeiro; ALMEIDA, Margareth Aparecida Santini de. Interseções entre socialização de gênero e violência contra a mulher por parceiro íntimo. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, supl. 3, 2021. DOI: 10.1590/1413-812320212611.3.02472020. Disponível na SciELO.

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A psicoterapia pode ser o seu lugar para desacelerar, se escutar e olhar para si com mais gentileza.
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