
Talvez você já tenha percebido que sente algo por alguém e, mesmo assim, tenha tentado ignorar.
Pode ser que tenha se perguntado várias vezes se aquilo era realmente atração, se era uma fase, se você estava confundindo carinho com desejo ou se simplesmente estava “inventando coisas”.
E talvez você até saiba o que sente, mas ainda tenha dificuldade de aceitar que isso também faz parte de você.
Como aceitar uma parte de si quando, durante tanto tempo, você aprendeu que deveria escondê-la?
Por que é tão difícil aceitar a própria sexualidade?
Por que nós, pessoas da comunidade LGBT+, tantas vezes precisamos pensar em “nos assumir”? Por que a heterossexualidade é tratada como algo que simplesmente existe, enquanto outras orientações sexuais parecem precisar ser explicadas, justificadas ou anunciadas?
A sexualidade deveria ser algo que qualquer pessoa pudesse descobrir em si mesma, sem precisar primeiro se perguntar se aquilo será aceito pelos outros.
Mas, para algumas pessoas, esse processo não é tão simples.
Algumas cresceram ouvindo diretamente que determinada sexualidade era errada. Outras nunca ouviram isso explicitamente, mas cresceram em ambientes onde simplesmente não existia espaço para falar sobre o assunto.
Às vezes ninguém precisa dizer:
“Não seja assim.”
Basta aprender, desde cedo, quais partes de nós recebem carinho e quais recebem silêncio.
E quando aprendemos que determinada forma de amar pode trazer rejeição, vergonha ou conflito, é possível começar a esconder até de nós mesmos aquilo que sentimos.
Aceitar sua sexualidade não significa que você precisa se assumir
Aceitar sua sexualidade não significa que você precisa se assumir imediatamente.
Não significa contar para sua família.
Não significa escolher um rótulo.
Não significa começar a falar sobre sua orientação sexual com outras pessoas.
E também não significa ter certeza absoluta sobre tudo.
Talvez o primeiro passo seja simplesmente existir para si mesmo, antes de decidir o que deseja compartilhar com os outros.
Você pode estar descobrindo que é gay, lésbica, bissexual, pansexual ou qualquer outra orientação. Também pode ainda não saber exatamente como definir aquilo que sente.
Você não precisa encontrar uma palavra perfeita antes de permitir que seus sentimentos existam.
E se eu ainda tiver dúvidas sobre minha sexualidade?
Talvez você esteja procurando uma definição capaz de garantir que nunca mais terá dúvidas.
Mas pessoas mudam. Relações mudam. A maneira como entendemos a nós mesmos também pode mudar.
Às vezes, a pergunta não é apenas:
“Qual é a minha orientação sexual?”
Mas também:
“Eu consigo aceitar aquilo que sinto sem precisar ter uma resposta definitiva?”
Você pode ter dúvidas e ainda assim levar seus sentimentos a sério.
Pode perceber uma atração que nunca havia percebido antes.
Pode se apaixonar por alguém inesperadamente.
Pode descobrir coisas sobre si aos poucos.
Isso não significa necessariamente que você estava mentindo antes. Talvez você simplesmente esteja conhecendo uma parte de si que ainda não conhecia.
O medo de perder as pessoas que você ama
Existe uma diferença entre perguntar:
“Quem eu sou?”
e perguntar:
“Quem eu posso ser sem perder as pessoas que amo?”
Porque, às vezes, o sofrimento não está exatamente na sexualidade.
Está na possibilidade de perder:
- a aprovação da família;
- amizades;
- relacionamentos;
- pertencimento;
- a imagem que construíram sobre você.
Talvez você não tenha medo de ser quem é.
Talvez tenha medo do que pode acontecer quando as outras pessoas descobrirem.
E esse medo pode fazer com que você passe muito tempo tentando encontrar uma resposta para uma pergunta que, no fundo, é outra:
“Será que ainda vão me amar se eu for completamente eu?”
Talvez aceitar sua sexualidade também envolva aceitar que nem todas as pessoas terão a reação que você gostaria.
Isso não significa que você precise enfrentar tudo sozinho, nem que precise romper imediatamente com quem não consegue compreender você.
Significa apenas reconhecer que a reação dos outros não está completamente sob seu controle.
Você não precisa ter vergonha daquilo que sente
Você pode amar sua família e ainda discordar dela.
Pode ter medo e ainda reconhecer aquilo que sente.
Pode não estar pronto para se assumir.
Pode ainda ter dúvidas.
Pode levar anos para compreender determinadas partes de si.
Nada disso torna aquilo que você sente menos legítimo.
Talvez você tenha passado tanto tempo tentando descobrir se “é normal” sentir o que sente que acabou esquecendo de perguntar:
“Como eu me sinto quando permito que isso simplesmente exista?”
Aceitar sua sexualidade talvez não seja encontrar uma resposta
Pode ser que aceitar sua sexualidade não seja chegar a uma conclusão.
Talvez seja simplesmente parar, por alguns momentos, de tratar aquilo que existe dentro de você como algo que precisa ser eliminado antes que você possa viver.
Se ninguém pudesse julgá-lo, o que você permitiria a si mesmo sentir?
Talvez essa pergunta seja mais importante do que encontrar imediatamente um rótulo.
Você não precisa descobrir tudo hoje.
Não precisa escolher uma palavra perfeita.
Não precisa contar para ninguém antes de estar preparado.
Talvez, por enquanto, aceitar sua sexualidade seja apenas conseguir olhar para aquilo que sente sem imediatamente tentar expulsá-lo de si.
A terapia pode ser um espaço para isso: não para dizer quem você é, nem para escolher sua orientação sexual por você, mas para que possa investigar quem é sem precisar se defender de um julgamento o tempo inteiro.
Talvez aceitar quem você é comece antes mesmo de conseguir explicar quem você é.





