
De onde vem a sensação de que, se você largar, tudo desmorona?
Como aprendemos a confundir vigilância constante com responsabilidade, e o que isso custa
4 may 2026
Ana Carolina Faria Oliveira
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De onde vem a sensação de que, se você largar, tudo desmorona?
Tem uma cena que me volta com frequência quando penso nas pessoas que chegam ao consultório carregando aquela exaustão que não aparece nos exames.
Não é a exaustão de quem não dormiu. É a de quem dormiu, acordou, tomou café, foi trabalhar, voltou, jantou, deitou, e fez tudo isso sem nunca ter estado inteiramente presente em nenhum momento. O corpo fez o percurso. A cabeça foi em outro lugar.
Quando pergunto o que estava acontecendo naquela tarde, naquele jantar, naquele fim de semana que passou tão rápido, a resposta quase sempre vem com um certo espanto: não sei. Estava resolvendo a semana que vinha. Estava pensando no que poderia dar errado. Estava de olho.
A mulher que não consegue terminar uma conversa sem já estar planejando a próxima. A que foi a um show que sempre quis ver e ficou pensando no trabalho da segunda-feira. A que descreve sua vida como razoavelmente boa, mas tem a sensação persistente de estar sempre chegando atrasada em si mesma. Isso tem um nome, mas não é o nome que costumamos dar a ele. Chamamos de ansiedade, de preocupação, de responsabilidade. E em parte é. Mas há algo antes disso, algo mais antigo: a convicção de que estar desatenta é perigoso.
O custo aparece no corpo antes de aparecer na consciência. É o cansaço que não passa depois de dormir. É acordar já pensando no que falta. É a sensação de que, por mais que você faça, a lista não diminui, ela só muda de forma. É terminar o dia com a impressão de ter feito muito e sentido pouco, e não saber bem o que isso significa, só que alguma coisa está errada.
É também uma sensação mais difícil de nomear, que é a de não saber muito bem quem você é fora do que você produz e do que você entrega. Fora do papel que ocupa. Fora do que os outros precisam de você. Quando alguém pergunta do que
você gosta, você hesita. Quando aparece um espaço livre, você não sabe o que fazer com ele, então preenche. Porque o vazio sem tarefa parece improdutividade, e improdutividade, em algum lugar que você aprendeu faz muito tempo, tem gosto de insuficiência.
Há uma exaustão específica em viver correspondendo a um papel que nunca ninguém te perguntou se você queria. A mulher que dá conta. A que não reclama. A que resolve. A que está bem. Que está sempre bem. E que, no fim do dia, quando todo mundo já foi dormir e ela finalmente senta, não sabe muito bem quem é essa pessoa que ficou.
Quase sempre, quando a gente consegue ir fundo o suficiente, encontra uma época em que essa convicção fez sentido. Uma casa onde a imprevisibilidade doía. Um contexto em que a criança precisava estar de olho antes mesmo de saber o que estava vigiando. Uma relação que ensinou que surpresa é sinônimo de perigo. O corpo aprende. E o que aprende, carrega. A questão é que esse aprendizado não tem data de validade automática. Ele continua operando mesmo quando o contexto mudou, mesmo quando a pessoa já tem outras ferramentas, outra vida, outro endereço.
E o custo, nesse ponto, já não é só a ausência do presente. É também o peso de carregar uma imagem de si mesma que foi necessária um dia e que agora consome mais do que protege. A pessoa que precisa dar conta de tudo, que não pode errar o timing, que está sempre de olho, essa pessoa gasta uma energia enorme mantendo uma vigilância que o contexto original exigia e o contexto atual não exige mais. Só que o corpo não sabe disso. O corpo ainda está lá.
Byung-Chul Han descreve com precisão o mundo que torna isso ainda mais difícil. Vivemos numa cultura que transformou o desempenho em identidade, que trata aantecipação como virtude e a pausa como risco. Não é preciso ter um chefe autoritário para internalizar essa lógica. Ela está no ar, nas mensagens que chegam fora do horário e que a gente responde porque não responder parece falta de comprometimento, na lista de tarefas que nunca termina, na sensação de que descanso precisa ser merecido. Esse ambiente faz com quem já trazia uma ferida anterior o que toda confirmação faz: diz que o corpo estava certo em não baixar a guarda.
Mas aqui é onde eu gosto de pausar, porque me parece que a conversa mais honesta não é sobre como eliminar essa ansiedade. Ela não vai embora. A imprevisibilidade é constitutiva da vida, não um problema a ser resolvido. Num sentido muito preciso, a angústia que sentimos diante do que não controlamos não é patologia, é o sinal de que somos livres e responsáveis por uma existência que ninguém vai viver por nós. Querer se livrar disso completamente é querer se livrar de ser humana.
O que muda com o tempo, e com o trabalho, é a relação com essa sensação. A capacidade de reconhecê-la sem ser capturada por ela. De perceber que a incerteza está aqui, que ela sempre vai estar, e ainda assim conseguir habitar o momento que existe agora em vez de já estar no próximo.
A vida é repetição. Há coisas que a gente vai ter que refazer amanhã, e depois de amanhã, e a semana que vem. O lixo que enche de novo, a reunião difícil que volta com outro nome, o cansaço que não resolve de uma vez. Tentar controlar essa repetição é o que cansa mais do que a repetição em si. Mas dentro dela, se a gente presta atenção, existem intervalos. Um café que ficou bom. Uma conversa que foi mais leve do que o esperado. Um fim de tarde que, se a cabeça não tiver já no amanhã, pode ser simplesmente um fim de tarde.
Não é sobre encontrar uma vida sem ansiedade. É sobre perguntar, no meio da vida que existe agora, o que está disponível e à sua medida nesse momento. Não depois que as coisas se resolverem. Agora. O que é possível sentir, ver, receber, enquanto a incerteza segue junto, como sempre seguiu.
Essa é a pergunta que me parece mais valiosa levar para dentro de um processo terapêutico. Não como a gente para de antecipar, mas o que existe aqui, nesse momento, que você ainda não está vendo porque está de olho no que pode vir.
Ana Carolina Faria, CRP 04/84913 | @re_existirpsi




