
Existe um comportamento tão frequente na vida de qualquer pessoa que quase não o percebemos enquanto acontece: fugir daquilo que incomoda. Ele aparece de formas discretas, quase sempre justificáveis, e raramente chama atenção para si. Adiar uma conversa difícil para a semana que vem. Recusar um convite quando a ansiedade aperta pouco antes de sair de casa. Mudar de assunto quando a discussão se aproxima de algo delicado. Rolar o feed do celular quando um pensamento desconfortável começa a se formar.
Nenhuma dessas ações é dramática. Nenhuma delas parece, isoladamente, um problema. E é justamente essa discrição que torna o padrão difícil de identificar em nós mesmos.
Por que evitar funciona tão bem
A primeira coisa a compreender é que evitar não é um erro de cálculo. É um comportamento eficaz.
Quando nos afastamos de algo desconfortável, o desconforto diminui de imediato. E aquilo que reduz o mal-estar tende a se repetir, porque é assim que aprendemos: o alívio ensina. Um comportamento que produz um resultado imediato favorável se fortalece, com ou sem nossa deliberação consciente.
Isso significa que fugir do que dói não é fraqueza, falta de disciplina nem ausência de força de vontade. É um processo de aprendizagem funcionando exatamente como deveria funcionar. A dificuldade não está no mecanismo, que é adaptativo em inúmeras situações, mas naquilo que ele produz quando se torna a estratégia predominante de lidar com o mundo interno.
Fuga e esquiva: dois nomes para um mesmo processo
Nas terapias comportamentais e contextuais, esse padrão é estudado há décadas e recebe duas denominações distintas, que ajudam a organizar o que observamos no cotidiano.
Fuga é o comportamento que interrompe um desconforto já presente. Sair de uma festa quando a ansiedade se torna intensa é fuga: a situação aversiva estava acontecendo, e o comportamento a encerrou.
Esquiva é o comportamento que impede o desconforto de aparecer. Não ir à festa é esquiva: o mal-estar sequer chegou a se instalar, porque a situação que o produziria foi evitada de antemão.
Os dois se mantêm pelo mesmo motivo. Funcionam. O desconforto some ou não chega, e o comportamento que produziu esse resultado se fortalece, tornando-se mais provável na próxima oportunidade.
Vale registrar que essa mesma classificação se aplica quando aquilo de que fugimos não é uma situação externa, mas um conteúdo interno: um pensamento, uma lembrança, uma emoção, uma sensação corporal. A Terapia de Aceitação e Compromisso chama esse fenômeno de esquiva experiencial, e o descreve como a tentativa de alterar a frequência, a forma ou a intensidade de experiências privadas, mesmo quando isso produz prejuízo naquilo que a pessoa valoriza.
A conta que chega depois
Cada esquiva resolve o momento. Mas ela também ensina outra coisa, silenciosamente: que aquilo era mesmo insuportável, e que a decisão de se afastar estava correta.
É por isso que o custo raramente aparece de imediato. Ele se acumula.
A conversa adiada se transforma em um assunto cada vez mais difícil de abrir, porque a cada semana de silêncio o peso do tema aumenta. O convite recusado reduz o repertório de situações sociais, e cada recusa torna a próxima um pouco mais provável. O projeto engavetado se torna mais ameaçador a cada mês, porque a distância entre a pessoa e a tarefa cresce junto com a expectativa de fracasso.
O alívio é imediato. O custo é cumulativo. E essa assimetria temporal é exatamente o que torna o padrão tão difícil de perceber de dentro: o benefício é visível na hora, o prejuízo só se mostra em retrospecto.
Quando a vida vai ficando menor
Com o tempo, o efeito se torna estrutural.
Menos lugares frequentados, menos conversas iniciadas, menos possibilidades consideradas. Não porque a pessoa deixou de querer essas coisas, mas porque cada vez mais experiências foram sendo evitadas, uma a uma, cada qual por uma razão que parecia boa no momento.
O que resulta disso é uma vida organizada em torno de não sentir, em vez de organizada em torno daquilo que importa. E essa é uma diferença considerável, porque a primeira exige vigilância constante, enquanto a segunda permite direção.
Nem toda evitação é um problema
Este é um ponto que merece cuidado, porque a leitura apressada do que foi dito até aqui pode produzir uma conclusão equivocada.
Afastar-se não é sempre um problema. Sair de uma situação genuinamente perigosa, encerrar um contato abusivo, recusar uma demanda que não faz sentido ou que ultrapassa o que se pode sustentar naquele momento: nada disso é esquiva problemática. É proteção, e é uma habilidade importante.
A diferença entre uma coisa e outra não está na aparência do comportamento, e sim na sua função. A mesma ação, não comparecer a um evento, pode ser proteção legítima em um contexto e esquiva restritiva em outro. O que distingue os dois casos é o efeito que o padrão produz na vida da pessoa ao longo do tempo.
Por isso, a pergunta útil não é "estou evitando alguma coisa?", que quase sempre terá resposta afirmativa e não leva a lugar nenhum. A pergunta é: o que essa evitação está me custando naquilo que eu valorizo?
O caminho não é forçar
Se o problema é evitar, poderia parecer que a solução é o oposto: encarar tudo, suportar qualquer desconforto, exigir de si uma tolerância que não se tem.
Não é isso.
Obrigar-se a atravessar situações difíceis por disciplina ou por autocobrança costuma produzir mais um tipo de sofrimento, sem alterar a relação da pessoa com aquilo que sente. A proposta das terapias contextuais é outra: abrir espaço para o desconforto na medida em que ele aparece no caminho de algo que importa. Não como um exercício de resistência, mas como consequência de escolher uma direção.
A diferença é sutil e decisiva. Não se trata de sentir menos, nem de aprender a não ter medo, ansiedade ou tristeza. Trata-se de que aquilo que se sente deixe de decidir sozinho por onde a sua vida pode passar.
Uma pergunta para levar
Se o medo, a ansiedade ou a tristeza deixassem de ser um obstáculo, e aqui não estou falando em fazê-los desaparecer, mas apenas em que deixassem de decidir por você, o que você faria hoje que vem adiando?
Não é uma pergunta com resposta rápida. Mas costuma ser um bom lugar por onde começar.
Sobre a autora
Se essa reflexão fez sentido para você, a psicoterapia pode ser um espaço para olhar com mais calma para esse funcionamento e para o que ele tem custado.
Luísa Homsi Jorge Ferreira
Psicóloga, CRP 06/233094
Atendimento online para adultos e idosos, em terapia analítico-comportamental e terapias contextuais.
Contato: luisa.hj.ferreira@gmail.com | (16) 99621-7931 | @psi.luisahjferreira
Referências
Hayes, S. C., Wilson, K. G., Gifford, E. V., Follette, V. M., & Strosahl, K. (1996). Experiential avoidance and behavioral disorders: A functional dimensional approach to diagnosis and treatment. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 64(6), 1152 a 1168.
Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2011). Acceptance and Commitment Therapy: The process and practice of mindful change (2a ed.). New York: Guilford Press.
Sidman, M. (1995). Coerção e suas implicações. Campinas: Editorial Psy.
Quem sou eu?

Beatriz de Souza
CRP:

06/205069
Atendimento:
Online
Às vezes o que sentimos toma conta da nossa vida sem nem percebermos, mas não precisa ser assim.
Prazer, sou Beatriz, psicóloga especialista em Clínica Fenomenológico-Existencial pelo IFEN-RJ. Acompanho adultos, jovens adultos e adolescentes que vivenciam exaustão mental, crises de ansiedade, burnout , esgotamento acadêmico, oscilações importantes de humor como bipolaridade, dificuldades em relacionamentos, autoestima abalada, busca de reconstrução de sentido e formas de lidar com a sensação de insegurança, solidão, ansiedade e tristeza profunda.
Na terapia, busco compreender não apenas o que está acontecendo com você, mas como você está vivendo essa experiência. O processo é um espaço para olhar para sua história, seus sentimentos, escolhas, relações e limites, construindo novas possibilidades de lidar com aquilo que hoje parece difícil de sustentar.
Se você sente que é o momento de desacelerar o ruído externo e olhar com carinho para o seu mundo interior, entre em contato, estarei aqui para caminhar ao seu lado.
Valor da Sessão / Tempo de duração
R$ 60,00
/
50 minutos
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