
O corpo, para a psicanálise, não se reduz ao organismo biológico. Ele não se resume a um conjunto de biomarcadores, genes, moléculas, células, músculos, orgãos e suas funçōes. O corpo é mais do que isso. É um corpo marcado e atravessado por aquilo que nos constitui, a linguagem. Mas o que isso significa?
Significa que nosso corpo é marcado por algo antes mesmo de nascermos. Ele é atravessado pelo desejo, sonhos e fantasias dos nossos pais, pelas palavras que vem deles, pelos silêncios, sons, barulhos, toques, pela forma como somos nomeados e recebidos no mundo. É nesse encontro entre organismo e a linguagem, com tudo que ela carrega, que um corpo vai tomando sua forma.
Por isso, nossa relação com o corpo não é nada natural. Somos capazes de investir nele e desinvesti-lo. Amá-lo e odiá-lo. Ele ganha forma com isso que vem do outro e nos marca de forma definitiva.
Mas há algo mais. A linguagem também falha. Ela não é capaz de representar, significar ou dizer completamente o corpo. E é justamente aí que ele pode comparecer de outras maneiras: nos sintomas, na angústia, na insônia, nas compulsões, ou seja, onde a palavra falta e não da conta.
Para dar conta dessa dimensão que ultrapassa o biológico e a natureza, Freud criou o conceito de pulsão. A própria palavra já remete a algo que pulsa, vibra, insiste. A pulsão diz respeito a esse ponto de encontro entre o organismo e a linguagem, entre o corpo e a satisfaçao. A pulsão é essa força que nos impele, que pede e que não se sacia nunca.
E, neste sentido, o corpo não se satisfaz apenas com aquilo que causa prazer e bem estar. A experiência humana de satisfação é paradoxal, complexa. Prazer e dor muitas vezes se confundem ou se entrelaçam. Talvez por isso insistimos em certos modos de buscar satisfação que, ao mesmo tempo que nos satisfazem, também nos fazem sofrer. É nesse ponto que podemos pensar o sintoma, como algo que causa sofrimento, mas que também é uma solução encontrada por cada um para lidar com isso que o atravessa, que o fura, que faz cicatriz e que deixa marca.
A psicanálise se interessa pelo que insiste no corpo, pelo modo único que cada um encontra de se apropriar, se satisfazer e habitar ou não o corpo. O corpo para a psicanálise não é apenas algo que temos, e se tempos não o temos por completo, não o dominamos, ele transborda e nos escapa. Por isso o corpo é também, algo que nos acontece.





