
Tem uma frase que aparece, cedo ou tarde, em quase todo consultório: "eu nunca contei isso pra ninguém". Vem baixinho, geralmente depois de um silêncio grande, como se a pessoa estivesse testando o chão antes de pisar nele. E o que motiva esse silêncio quase nunca é o fato em si, é o medo da reação. A pessoa já reagiu por dentro, já se julgou, já decidiu sozinha que aquilo é feio, vergonhoso ou imperdoável. O julgamento que ela teme receber do psicólogo, na maioria das vezes, é só o eco do julgamento que ela já fez de si mesma, projetado pra fora.
Isso tem uma explicação simples: a gente aprende a se julgar antes de aprender a se entender. Criança que erra ouve "que feio" antes de ouvir "me explica o que aconteceu". Então o cérebro internaliza essa ordem, primeiro vem o veredito, depois, talvez, a compreensão. O problema é que esse hábito, repetido a vida inteira, vira uma voz interna que julga qualquer coisa antes mesmo de examinar. E quando essa pessoa finalmente fala em voz alta o que nunca disse a ninguém, ela não está testando o psicólogo. Está testando se o mundo lá fora vai confirmar o julgamento que ela já fez.
E é exatamente aí que o trabalho do psicólogo é diferente do que a maioria espera. Não é aprovar, não é dizer "tá tudo bem" de forma vazia, não é minimizar. É genuinamente querer entender o caminho que levou até ali, que decisão fazia sentido pra você naquele momento, com as ferramentas emocionais que você tinha então. Julgamento olha pro ato isolado. Compreensão olha pro contexto inteiro. E quase sempre, quando o contexto aparece completo, aquilo que parecia imperdoável começa a fazer sentido humano, não porque deixou de ter peso, mas porque para de ser tratado como aberração e passa a ser tratado como história.
No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja "será que o psicólogo vai me julgar", mas "por que eu já me julguei tanto antes mesmo de contar". Essa pergunta, sozinha, já é terapia. Porque o segredo mais pesado quase nunca é o fato guardado , é o julgamento guardado junto com ele. E quando alguém finalmente escuta sem devolver a sentença que você mesmo já tinha decretado, algo se solta que nenhum esforço sozinho conseguiu soltar antes. Não é perdão que você precisa receber de fora. É espaço pra examinar o que, até então, você só teve coragem de condenar.
Quem sou eu?

Sofia Moretti de Oliveira Campos
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Meu nome é Sofia, sou formada pela Universidade Federal de Uberlândia e atendo pelo referencial da Psicanálise. Minhas áreas principais de estudo são a violência contra mulheres, crianças e população LGBT+.
Por meio dos meus atendimentos, realizo uma escuta centrada em acolhimento, mas que também auxilie o sujeito a encontrar autonomia sobre suas próprias palavras.
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