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SINCRONICIDADE: quando uma coincidência parece carregar um significado profundo.

Por que algumas coincidências parecem “estranhamente pessoais”?

27 may 2026

Gabriel Reis de Souza

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Tomada de decisão

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Recentemente realizei minha primeira viagem para a cidade de São Paulo. Foi algo bastante exaustivo: aproximadamente 11 horas de estrada entre minha cidade no inteiror de Minas Gerais e a capital paulista. A justificativa para fazer uma viagem que, de certa forma, eu já desejava há muito tempo aconteceu por conta do show de despedida da banda que me acompanha desde a adolescência e continua presente até hoje. O senso de urgência e o incômodo diante da possibilidade de talvez nunca mais assistir a uma apresentação ao vivo de uma banda que impactou profundamente meu gosto musical me fizeram sair da inércia.

 

E assim aconteceu a tão desejada viagem para a maior cidade da América Latina, com a intenção de realizar antigas vontades: encontrar meus webmiguxos, conhecer a tão falada (ou mal falada) Liberdade, e experimentar a sensação de estar em uma cidade que nunca dorme. É curioso, porque já estive várias vezes no Rio de Janeiro e, ainda assim, nunca senti essa dimensão de cidade viva e ativa como senti em São Paulo.

Mas, tirando todas as experiências que vivi naquela cidade e que levarei comigo com carinho, algo específico me chamou atenção. No prédio em que me hospedei havia uma arte na lateral com a frase: “Todo recomeço nasce de um incômodo”.

 

De certa forma, eu era “convidado” a olhar para aquela frase sempre que saía do prédio para ir ao Oxxo ou “oquisô”. Aquela loja de conveniência 24 horas que parecia existir em cada esquina da cidade. Durante os dias da viagem, fiquei pensando constantemente naquela frase. E, depois que voltei para casa, pensei ainda mais nela.

Percebi como o incômodo diante da possibilidade de nunca ver aquela banda ao vivo novamente me colocou em movimento. Não apenas para realizar o desejo latente de assistir ao show, mas também para viver outras experiências que estavam adormecidas: conhecer pessoalmente pessoas com quem conversei durante anos através de uma tela de computador, explorar uma cidade gigantesca e experimentar uma sensação de liberdade que, talvez, eu estivesse precisando há muito tempo.

 

Foi justamente esse incômodo que me fez organizar tudo: reservar dinheiro, pesquisar hospedagens, procurar rotas acessíveis para facilitar minha mobilidade pela cidade e escolher locais que tornariam a experiência mais proveitosa. E, refletindo sobre isso, lembrei-me do conceito de sincronicidade desenvolvido por Jung.

 

Segundo ele, a sincronicidade acontece quando dois acontecimentos se conectam não por uma relação direta de causa e efeito, mas por um significado subjetivo que emerge daquela coincidência. Ele define a sincronicidade como uma “coincidência significativa”, uma conexão acausal entre acontecimentos externos e estados internos da psique.

Talvez aquela frase no prédio fosse apenas uma coincidência qualquer. Talvez fosse só mais uma arte urbana perdida no meio de São Paulo. Mas, subjetivamente, ela apareceu exatamente em um momento em que eu estava vivendo aquilo que ela dizia. O incômodo de perder uma oportunidade havia me colocado em movimento, e aquela frase parecia simbolizar exatamente o que eu estava experienciando internamente. Não porque o universo estivesse “mandando sinais”, mas porque certos acontecimentos externos acabam encontrando algo que já estava em transformação dentro de nós.

 

Jung também aponta que algumas coincidências ganham força justamente porque mobilizam conteúdos emocionais profundos, quase como se determinados momentos da vida aproximassem o mundo externo daquilo que está acontecendo internamente na psique. Talvez tenha sido isso que tornou aquela frase tão marcante para mim.

 

No fim, acho que a vida raramente muda através do conforto absoluto. Muitas vezes, são pequenos incômodos que nos empurram para experiências que adiamos durante anos. O desconforto de permanecer igual, o medo de perder algo importante, a sensação de que o tempo está passando rápido demais. Talvez o leitor também consiga lembrar de algum momento em que um incômodo aparentemente pequeno acabou provocando uma mudança significativa: uma conversa adiada, uma viagem nunca feita, um vínculo retomado, uma decisão finalmente tomada.

 

Às vezes, aquilo que mais incomoda também é aquilo que mais insiste em nos mover.

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