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A angústia é política

O que fazer com a incerteza em tempos de eleição?

22 oct 2026

Mariana Prem Mendes

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Tomada de decisão

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Quando a política angustia: o que fazer com a incerteza em tempos de eleição?

Em períodos eleitorais, é comum que as conversas, as notícias e as relações interpessoais sejam atravessadas pela política. As disputas se intensificam, as opiniões se confrontam e o futuro parece ocupar um espaço cada vez maior nas preocupações do presente.

Para algumas pessoas, esse período desperta entusiasmo e esperança. Para outras, produz medo, indignação, insegurança e angústia. Há quem acompanhe cada notícia na tentativa de antecipar o que pode acontecer. Há quem evite as redes sociais para preservar um pouco de tranquilidade. E há quem sinta que, independentemente do que faça, não consegue se desligar das preocupações com os rumos do país.

Mas, por que a política pode mobilizar tanto o nosso sofrimento psíquico?

Talvez seja necessário começar reconhecendo que a política não está tão distante da vida cotidiana quanto, às vezes, imaginamos.

 

A política também faz parte da nossa vida psíquica

As decisões políticas não acontecem em um mundo separado da nossa experiência. Elas atravessam o acesso à saúde, à educação, ao trabalho, à moradia e aos direitos sociais. Também influenciam as condições em que diferentes grupos vivem, circulam e participam da sociedade. Por isso, a preocupação com uma eleição nem sempre se resume à preferência por um candidato ou partido. Ela pode envolver receios muito concretos sobre as condições de vida, a continuidade de direitos, a segurança e as possibilidades de futuro.

Para algumas pessoas, determinadas disputas eleitorais podem representar a possibilidade de perder direitos ou de ver sua existência ainda mais deslegitimada socialmente. Nesses casos, a apreensão não pode ser compreendida apenas como uma dificuldade individual de lidar com emoções. É importante considerar as condições sociais e históricas que participam da produção do sofrimento.

Isso não significa que todas as preocupações se concretizarão, nem que todas as pessoas experimentarão o período eleitoral da mesma maneira. Significa reconhecer que nossos sentimentos não surgem isolados do mundo em que vivemos. A vida psíquica também é atravessada pela história, pelas relações sociais e pelas condições concretas da existência.

 

A angústia diante de um futuro que não podemos controlar

A angústia pode surgir quando nos vemos diante de algo que mobiliza profundamente nossos desejos, receios e expectativas, mas cujo desfecho não conseguimos determinar.

Em períodos eleitorais, essa experiência pode se intensificar. Queremos saber o que acontecerá, quais serão as consequências de uma decisão coletiva e como nossa vida poderá ser afetada. Procuramos informações, acompanhamos pesquisas, discutimos possibilidades e tentamos antecipar cenários.

Até certo ponto, buscar informações é uma maneira legítima de participar da vida democrática. O problema pode aparecer quando a tentativa de compreender o que está acontecendo se transforma em uma busca interminável por garantias de que tudo ficará bem.

Afinal, por mais que nos informemos, não conseguimos eliminar todas as incertezas. Tampouco podemos controlar individualmente o resultado de uma eleição ou todas as suas consequências.

Essa constatação pode ser difícil de sustentar, especialmente quando aquilo que está em jogo é importante para nós.

Talvez uma das questões colocadas por esses períodos seja justamente esta: como continuar vivendo, construindo relações e fazendo planos quando não temos garantias sobre o futuro?

 

Quando a preocupação com o coletivo invade o cotidiano

Acompanhar os acontecimentos políticos pode ser uma forma de participação, cuidado e compromisso com a sociedade. No entanto, quando a preocupação passa a ocupar quase todo o espaço disponível, pode se tornar difícil preservar momentos de descanso, concentração e convivência.

Às vezes, sentimos culpa por nos afastarmos das notícias. Em outras situações, temos a impressão de que descansar ou pensar em nossos próprios projetos significa ignorar problemas coletivos importantes. Como se precisássemos permanecer permanentemente mobilizados para provar que nos importamos. Mas, existe uma diferença entre reconhecer a importância de um problema e acreditar que precisamos estar emocionalmente disponíveis para ele a todo instante.

Cuidar de si não significa abandonar o compromisso com o coletivo. Da mesma forma, participar da vida política não exige que transformemos cada momento do cotidiano em uma ocasião de preocupação.

Podemos acompanhar os acontecimentos, conversar, estudar, votar, participar de organizações e movimentos, construir espaços de debate e buscar formas de atuação compatíveis com nossas possibilidades. Também podemos estabelecer limites para a exposição às notícias e reconhecer quando precisamos de uma pausa. Não porque os problemas deixaram de existir, mas porque nossa capacidade de participar do mundo também depende das condições em que conseguimos sustentar a própria vida.

 

O que a psicanálise pode nos ajudar a pensar?

A psicanálise não oferece uma fórmula para eliminar a angústia em momentos como esse. Tampouco pretende substituir a análise da realidade política por uma explicação exclusivamente individual. Sua contribuição pode estar em abrir um espaço para investigar como cada pessoa é atravessada por aquilo que acontece no mundo.

O que exatamente nos angustia quando pensamos no futuro? Que perdas tememos? Quais experiências anteriores participam dos nossos receios? Como nossas relações, nossa história e nossos ideais influenciam a maneira como interpretamos os acontecimentos?

Essas perguntas não servem para desqualificar nossas preocupações, como se tudo fosse uma questão interna a ser resolvida individualmente. Podemos pensar nesses processos como atravessamentos singulares: a maneira própria pela qual cada sujeito é afetado pelos acontecimentos coletivos, a partir de sua história, de seus vínculos e das condições sociais em que vive.

Duas pessoas podem acompanhar a mesma eleição e experimentar sentimentos muito diferentes. Mesmo quando compartilham preocupações semelhantes, as histórias e os significados envolvidos não são necessariamente os mesmos. Na experiência de uma análise, essa singularidade pode encontrar espaço para ser escutada, sem que seja necessário reduzir o sofrimento a uma explicação pronta.

 

Entre aquilo que nos afeta e aquilo que podemos fazer

Talvez não seja possível atravessar um período eleitoral sem sentir medo, raiva, esperança, frustração ou incerteza. Não precisamos transformar todos esses sentimentos em problemas que devem ser corrigidos imediatamente. Podemos reconhecer o que sentimos e, ao mesmo tempo, investigar como queremos nos posicionar diante do que nos afeta.

Há acontecimentos que não dependem de nós. Há decisões que são coletivas. E há formas de participação, cuidado e organização que podemos construir com outras pessoas. Reconhecer os limites da nossa ação não precisa significar desistência. Pode ser justamente o que nos permite distinguir entre a tentativa impossível de controlar todos os desfechos e a possibilidade concreta de participar da construção do mundo em que vivemos.

A política não se resume ao momento do voto, assim como nossa relação com o coletivo não precisa ser sustentada pela angústia permanente. Podemos nos implicar com o mundo sem exigir de nós mesmos que suportemos tudo, o tempo inteiro, individualmente.

Talvez a pergunta não seja como deixar de nos angustiar com a política, mas como encontrar maneiras de sustentar essa angústia sem permitir que ela ocupe todos os espaços da nossa existência.

Afinal, se o mundo participa daquilo que somos, também precisamos encontrar formas de continuar vivendo nele, com outras pessoas, construindo possibilidades mesmo quando o futuro permanece incerto.

 

A participação política e os limites da ação individual

É importante lembrar que reconhecer os limites da nossa ação individual não significa desconsiderar a potência da participação coletiva. O voto é uma das formas de participação política e de exercício da cidadania. Embora nenhum voto, isoladamente, determine os rumos de uma eleição, cada um integra uma escolha coletiva que produz consequências concretas para a sociedade.

Podemos não controlar o futuro, mas isso não significa que sejamos incapazes de participar de sua construção. Entre a tentativa de controlar tudo e a sensação de que nada podemos fazer, existe um espaço para a ação, o diálogo e a organização coletiva.

É nesse espaço que podemos sustentar nosso compromisso com o mundo sem exigir de nós mesmos o impossível: carregar, individualmente, o peso de transformá-lo.

Quem sou eu?
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Viviane dos Santos Cavalari

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Sou psicóloga de orientação analítica (junguiana) e dedico minha escuta a acompanhar pessoas em suas jornadas de redescoberta, transformação e reencontro consigo mesmas.

Entendo a terapia não como um lugar de julgamentos ou de fórmulas prontas, mas como um espaço seguro de travessia. Na perspectiva junguiana, não olhamos para a sua dor, ansiedade, crises ou angústias apenas como sintomas a serem eliminados a qualquer custo — mas como convites do seu inconsciente para olhar para aquilo que precisa de atenção, cuidado e integração.

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