
O uso de plataformas de inteligência artificial (IA) na Psicologia é uma inovação capaz de mudar significativamente a maneira como os profissionais da área produzem avaliações, intervenções e outros processos terapêuticos. Segundo Amaro Junior, Nakaya e Rizzo (2024), algoritmos conseguem criar mecanismos de triagem, antecipar sintomas e, em certo ponto, simular escuta empática ativa, mostrando novos horizontes ao que, até então, seria considerado uma experiência exclusivamente humana.
Silveira e Paravidini (2024) pontuam que é imprescindível compreender que tecnologias não conseguem emular a complexidade da escuta clínica efetiva, todavia, podem, quando bem utilizadas, serem um suporte que amplia e facilita acesso à saúde mental e a tratamentos assertivos.
No que se refere ao atendimento, inteligências artificiais são amplamente aplicadas em processos de triagem, análise sistêmica de estados emocionais, apoio à tomada de decisões terapêuticas e à montagem de setting terapêuticos. Nesse patamar, algumas plataformas treinadas para analisar linguagem oral e escrita, além de expressões faciais, conseguem identificar com precisão padrões associados a transtornos mentais, como depressão e ansiedade (Gonçalves, 2024).
Em se tratando da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, segundo Constantino (2023), pesquisadores configuraram um algoritmo que prevê sinais de desordem psíquica baseada em postagens de redes sociais, com expressiva margem de acerto; logo, este tipo de mecanismo demonstrou utilidade para triagem na atenção primária à saúde, quando existe uma falta de profissionais disponíveis para atendimento.
Gonçalves (2024) destaca que este tipo de abordagem é uma porta de acesso aos serviços psicológicos, podendo direcionar casos urgentes e reduzir o tempo de espera de pacientes, tendo em vista a cautela e a constante revisão da interpretação dos dados.
Quanto à psicoterapia, mecanismos de inteligência artificial estão sendo fornecidos por meio de chatbots ou de prompts (pergunta que se faz ao atendimento virtual), alimentados com informações de pacientes para a criação de scripts terapêuticos adaptados às necessidades individuais. Contudo, Silveira e Paravidini (2024) destacam que o elemento primordial do sucesso da psicoterapia, a relação terapêutica, depende da empatia humana e da criação sólida de vínculo, situações que as máquinas, até o momento, não conseguem emular.
Existem, ainda, modelos de aplicação da inteligência artificial na interpretação de testes psicológicos, que, conforme Gonçalves (2024), a base de análises fundamentadas em aprendizagem de máquina é utilizada para interpretar as análises de respostas, indicando, com precisão, estatística de confiança. Outrossim, este tipo de inovação exige de profissionais uma 9 leitura sistemática e que atenda aos resultados; segundo Silveira e Paravidini (2024), as inteligências artificiais conseguem interpretar padrões, porém, falham na ligação do resultado com: histórico do paciente, contextos sociais, familiares e ambientais.
Outra aplicação plausível é a de organização sistemática de prontuários, fornecendo históricos precisos e dados, não apenas de indivíduos, mas de grupos. Amaro Júnior, Nakaya e Rizzo (2024) demonstram que inteligências artificiais podem identificar e prever padrões entre diferentes sujeitos, o que auxilia no planejamento de intervenções e na tomada de decisões. Todavia, Gonçalves (2024) sinaliza que a digitalização e o compartilhamento de dados clínicos necessitam de rigoroso controle e privacidade, pois existe risco real de vazamento.
Incorporar, portanto, o uso de ferramentas de inteligência artificial no contexto da psicologia e psicoterapia, configura um enorme avanço, com todas as ressalvas técnicas e éticas que o assunto abrange. E, apesar da potencialização na detecção precoce de sintomas e auxílio na organização de dados, ao mesmo tempo que facilita o acesso a tratamentos terapêuticos, as inteligências artificiais desafiam, de forma contínua, os preceitos éticos fundamentais da psicologia, como a consideração da pluralidade do paciente, a criação de vínculo terapêutico e o sigilo de dados.
Todo avanço tecnológico traz mudanças radicais na visão de mundo do profissional (responsável por manter valores humanistas no atendimento aos pacientes). Logo, devendo-se resumir a inteligência artificial em apenas isto: uma ferramenta; e não um substituto de qualquer forma.
REFERÊNCIAL
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