
Assistindo a esses dois filmes, ficou evidente como eles retratam essa virada marcante que acontece na vida adulta: o instante em que a figura que criamos sobre os nossos pais precisa se transformar.
Quando somos crianças, a tendência é olhar para os pais apenas pelo lugar que eles ocupam no nosso dia a dia. A mente infantil tenta construir certezas, seja criando expectativas sobre quem nos protege ou fantasiando sobre quem se fez ausente. Só com o tempo é que a gente nota que, antes de assumirem esse papel, eles já eram indivíduos comuns, com um histórico de dores e escolhas que começou muito antes da nossa chegada.
É a diferença entre o olhar da infância, que enxerga o pai apenas como pai, e o olhar maduro, que consegue ver o ser humano por trás dessa função..
Essa travessia fica nítida nas duas histórias. Em Aftersun, a filha precisa resgatar lembranças antigas para notar as fragilidades que o pai escondia na época. Em Valor Sentimental, a narrativa mostra a busca por limites diante de um pai distante, que só consegue buscar aproximação por meio da arte. Ambas mostram a tentativa de encarar esses homens além da relação parental.
Reconhecer esse cenário não serve para dar desculpas para as falhas passadas. A chave está em parar de exigir uma perfeição que não existe. Ficar preso a essa cobrança nos mantém atados ao que não foi entregue no passado. Ao abrir mão dessa expectativa, o desgaste diminui, a realidade é aceita e o caminho fica livre para a construção da própria autonomia.





