
Continuando a série de postagens sobre a experiência de uma análise, gostaria de escrever hoje sobre algo que costuma causar estranhamento, os restos: aquilo em nós que não vai embora, que insiste em permanecer, por mais que desejemos descartá-los ou nos livrar dele.
Os restos falam daquilo que marca, daquele resíduo, daquele traço que não vai embora.
Vivemos em uma época que promete soluções definitivas. Vende-se a idéia de que podemos nos curar definitivamente de nós mesmos, eliminar nossos sintomas, eliminar um trauma e nos tornarmos nossa "melhor versão", sob a pena de atingir um ideal inalcançável. Como se fosse possível, um dia, nos livrarmos completamente de tudo o que nos faz sofrer.
A psicanálise vai na contramão desse discurso. Justamente por reconhecer nele uma impossibilidade e ele mesmo ser uma fonte de sofrimento, pois cria uma ilusão que é possível alcançar o inalcançável.
Em uma análise, algumas coisas realmente mudam. Certas identificações perdem sua força, alguns sintomas deixam de ocupar o mesmo lugar e novas formas de viver pode surgur. Mas essas transformações nunca acontecem como um apagamento. Sempre resta alguma coisa.
Esse resto não é um fracasso da análise, ao contrário, ele faz parte da própria condição humana. O resto guarda uma relação muito próxima com uma outra palavra que hoje é abominada, o limite. O resto representa justamente o imposição de um limite que estrutura a experiêcia humana no mundo. É a partir do reconhecimento dos nossos limites e dos limites do outro que podemos fazer melhores escolhas, fazer algo aquilo que é impossível de ir embora, que é nosso.
Aquilo que foi sendo construído pelas marcas da nossa história, pelos encontros que tivemos, pelas palavras que nos tocaram e pelas maneiras singulares que encontramos para responder ao que nos aconteceu. Não existe um sujeito separado dessas marcas. Mesmo quando deixamos de nos reconhecer em uma antiga identificação ou encontramos outra forma de lidar com nosso sintoma, algo dessa história fica conosco.
Talvez seja justamente aí que uma análise produza um de seus efeitos mais importantes: perceber que aquilo que nos fazia sofrer também participou da construção de quem nós somos. Não para glorificar o sofrimento, mas para deixar de travar uma guerra impossível contra uma parte de nós mesmos.
Isso não significa resignação. A proposta da psicanálise é reduzir o sofrimento e ampliar as possibilidades de viver. O que ela não promete é uma existencia sem conflitos, tensões, impasses e angústias. Justamente por reconhecer que isto é impossível, e parte do sofrimento contemporâneo advém de acreditar nessa ilusão. Há sempre uma dimensão que escapa às soluções completas.
Ao final de uma análise não nos tornamos imunes ao sofrimento, aos sintomas ou as contradiçoes. Tornamo-nos, quem sabe, menos reféns deles.
E o que resta, esse resto que não pode nem vai ser eliminado, deixa de ser um peso e passa a se tornar marca singular, algo com o qual cada um aprende a viver de maneira própria, mais livre e menos sofrida.





