
Tem dias em que o celular não para. Chegam mensagens, aparecem compromissos, alguém pergunta alguma coisa, outra pessoa precisa de você. Você conversa, responde, trabalha, resolve. E, ainda assim, quando o dia termina, fica uma sensação difícil de explicar: faltou companhia, mesmo tendo tanta gente por perto.
Talvez tenha faltado alguém para quem você pudesse responder com sinceridade à pergunta “como você está?”. Alguém diante de quem não fosse necessário organizar o sofrimento antes de falar.
Essa experiência merece atenção. E merece, principalmente, ser compreendida sem julgamentos.
O que uma pesquisa global ajuda a entender
Um estudo publicado em 2026 no European Journal of Epidemiology analisou 218.048 respostas de pessoas de 148 países, utilizando dados da pesquisa Gallup World Poll de 2023 e 2024. Mais de uma em cada cinco relatou ter sentido solidão durante boa parte do dia anterior à entrevista. Esse recorte importa: a pesquisa investigou uma experiência recente, sem estabelecer que todas essas pessoas viviam uma solidão persistente. [1]
Também apareceram diferenças entre os contextos econômicos: os relatos foram mais frequentes em países de baixa renda. Ter pessoas com quem contar esteve associado a menor probabilidade de solidão. Como o estudo é observacional, essas relações não demonstram, por si só, causa e efeito. [1]
Esses resultados convidam a uma reflexão: como estamos construindo nossas relações e quais condições temos para sustentá-las?
Por que “é só sair mais” pode não ajudar
Imagine alguém que trabalha o dia inteiro, enfrenta um deslocamento cansativo e chega em casa tentando dar conta das tarefas que ficaram. Encontrar amigos pode ser um desejo verdadeiro. Mas onde esse encontro cabe? Com qual tempo, dinheiro e disposição?
Agora imagine outra pessoa que até encontra companhia, mas sente que precisa estar sempre bem para ser aceita. Ela participa, ri, escuta e ajuda. Quando chega sua vez de precisar, muda de assunto.
São situações diferentes. Por isso, antes de oferecer uma solução, vale perguntar o que está faltando naquela experiência.
Falta oportunidade de convivência? Falta confiança? Houve uma perda, uma mudança de cidade ou o afastamento de pessoas importantes? Existe receio de incomodar ao pedir companhia?
A orientação “você precisa conhecer gente” pode passar longe da dificuldade de quem já conhece muitas pessoas, mas não sabe com quem pode dividir um dia ruim.
Quando precisar de alguém vira motivo de vergonha
Talvez você conheça algumas destas frases:
“Todo mundo tem seus problemas. Não vou colocar os meus nas costas de ninguém.”
“Se eu precisar pedir, já perdeu o sentido.”
“Na minha idade, eu deveria saber lidar com isso.”
Vale observar o que acontece depois desses pensamentos. Você procura alguém ou se recolhe? Dá a outra pessoa a oportunidade de responder ou decide antecipadamente que ela não vai se importar?
Essas perguntas não servem para responsabilizar quem se sente só. Algumas tentativas de aproximação realmente encontram indisponibilidade, desinteresse ou relações pouco acolhedoras. Reconhecer isso também faz parte do cuidado.
Ao mesmo tempo, pode ser importante investigar se experiências anteriores estão decidindo, sozinhas, o que você espera de todos os encontros futuros.
Pequenas aproximações, expectativas possíveis
Uma mensagem como “lembrei de você, podemos conversar esta semana?” pode abrir uma possibilidade de contato. Um convite concreto pode ajudar a tirar um encontro do campo do “vamos marcar”. Participar regularmente de uma atividade de interesse pode criar oportunidades de convivência.
Nada disso garante intimidade imediata. Relações precisam de tempo, reciprocidade e disponibilidade dos dois lados. E nem toda aproximação se transforma no vínculo que gostaríamos.
O objetivo pode começar de forma mais simples: reconhecer de que companhia você sente falta e experimentar maneiras possíveis de buscá-la, respeitando seus limites e os do outro.
Também vale olhar para as relações que já existem. Há alguém de quem você poderia se aproximar um pouco mais? Alguma conversa que vem sendo adiada? Alguma necessidade que ainda não conseguiu colocar em palavras?
Como a psicoterapia pode ajudar
No atendimento psicológico, há espaço para compreender como a solidão aparece na sua história. Podemos explorar o que você espera das relações, os receios envolvidos em se aproximar e as experiências que tornam difícil confiar.
Esse trabalho pode incluir aprender a comunicar necessidades, estabelecer limites, lidar com frustrações e reconhecer relações nas quais existe reciprocidade. O caminho depende do que faz sentido para você e das condições concretas da sua vida.
A terapia pode apoiar esse processo, enquanto os vínculos e as possibilidades de pertencimento são construídos também fora dela.
Se esse assunto encontrou alguma coisa que você vem sentindo, podemos conversar. Você não precisa esperar ter todas as respostas, nem encontrar uma explicação perfeita para procurar ajuda.
Talvez possamos começar por uma pergunta: de que tipo de presença você está sentindo falta?
Jairo Nascimento
Psicólogo - CRP 16/12376
Referências
- LEBLANG, D.; WESSELBAUM, D. Loneliness around the world: patterns, predictors, and well-being implications. European Journal of Epidemiology, 2026. Acesse o estudo original.
- O GLOBO. Existe uma epidemia global de solidão, revela estudo com 218 mil pessoas; veja as causas. Saúde, 27 ago. 2026.
Quem sou eu?

Lanna Isabel Ferreira Barbosa
CRP:

06/205609
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