
Quando a emoção transborda, a vida parece nos convidar a olhar para dentro.
Aprendemos a ser boas/bons, aprendemos a cuidar, aprendemos a jamais desagradar, mesmo que isso implique em abrir mão de nós mesmos. Aprendemos que é preciso ser sempre polida(o) e educada(o), mas, quando a pressão não encontra vazão, não há outro caminho senão a explosão.
Nossa cultura parece impor sobre todos nós um manual de como devemos nos comportar, do que é ser bom e do que é o mau. Mau este que, por sua vez, deve ser relegado à profundidade do nosso inconsciente. Veja, não me refiro a comportamentos criminosos, mas a tudo aquilo que não agrada ao outro.
Dizer não pode ser visto por alguns como um ato de egoísmo; o sujeito que coloca limites é visto como difícil e desagradável. Aprendemos a domesticar nossas emoções e desejos, a retratá-los como o inimigo a ser combatido. Mas talvez tenhamos nos esquecido de que, por melhor que cuidemos dos nossos animais de estimação, seus instintos os convocam a correr pelas ruas ao abrir o portão, mesmo que retornem cheios de medos logo após. Não seríamos nós também seres instintivos? Nossos instintos mais primitivos e até “inconvenientes” também não encontram caminhos para se manifestar de vez em quando?
No livro Os arquétipos e o inconsciente coletivo, Jung descreve: “Quem pertencer a um círculo cultural que busca o estado perfeito em algum lugar do passado deverá sentir-se estranhamente tocado pela figura do ‘Trickster’”. Esta citação me parece nos lembrar de que nossa humanidade é dúbia: ninguém é sempre um bonitinho, como diria Pitty, e tentar ser nos sufoca e, certamente, em algum momento, o nó há de sair, seja em pratos e, às vezes, em berros.
Lembro-me de duas professoras. Uma da graduação falava da palhaçaria como instrumento da psicoterapia. Na época, talvez o tema não tenha aberto tantos insights em mim, mas, recentemente, ele voltou a atravessar minhas reflexões, e me dei conta do que talvez estivesse sendo proposto. Frequentemente tentamos manter uma imagem digna de ser apreciada; tememos ser rechaçados, errar, mas será que a vida nos solicita justamente o contrário? Vestir-nos, metaforicamente, de palhaços e ir com a cara e a coragem de desagradar, de não ser aceito, de passar vergonha ou, quem sabe, até dar boas gargalhadas?
A segunda professora já foi da pós-graduação. Ela disse algo como: na vida, em muitos momentos, a cura vem apenas depois daquele choro de soluçar (solutio). Nem sempre desagradar, perder o controle de si mesmo ou com o outro é um sinal negativo; às vezes, é o começo de uma nova caminhada, rumo, como no caso da personagem, a priorizar a si mesma.





