
Ninguém gosta de imaginar que a infância, que deveria ser espaço de afeto, segurança e descobertas, possa ser atravessada por abusos. Mas a verdade incômoda é que eles acontecem com muito mais frequência do que se costuma admitir. Muitas vezes, ficam escondidos em silêncios pesados, em lembranças fragmentadas, em feridas que não cicatrizam porque nunca puderam ser nomeadas. O abuso, seja físico, emocional ou psicológico, deixa marcas profundas que podem acompanhar uma pessoa por toda a vida, influenciando sua autoestima, suas relações e até a forma como ela percebe a si mesma e o mundo.
Falar sobre isso é doloroso. É como reabrir uma ferida que já doeu demais. Não raro, quem passou por essas experiências sente culpa, vergonha ou medo de não ser acreditado — sentimentos injustos, mas muito comuns. Por isso tantas histórias permanecem guardadas em segredo, reforçando a ideia enganosa de que são casos isolados, quando, na realidade, fazem parte de um problema coletivo, silencioso e urgente.
A terapia pode ser um espaço de respiro nesse caminho. Um lugar onde, pouco a pouco, é possível dar nome ao que aconteceu, revisitar essas memórias sem precisar enfrentá-las sozinho, construir novas formas de lidar com as marcas e retomar a sensação de poder sobre a própria vida. Não é um processo simples nem rápido, mas pode ser libertador. Reconhecer a dor é também abrir espaço para a possibilidade de cura e para uma vida que não seja definida apenas pelo trauma.





