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Além do cansaço: burnout, gênero e a sobrecarga invisível das mulheres

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5 de mai. de 2026

Milena Schmitt Moura

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Autoconhecimento

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O burnout costuma ser compreendido como consequência direta do excesso de trabalho. Embora essa leitura não esteja errada, ela é insuficiente. Quando observamos mais atentamente quem está adoecendo e como esse sofrimento se manifesta, percebemos que o esgotamento não se distribui igualmente.

 

Vivemos em uma sociedade marcada pela produtividade, pela aceleração e pela exigência constante de desempenho. O filósofo Byung-Chul Han descreve esse cenário como uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito passa a explorar a si mesmo em nome da produtividade contínua. Maria Rita Kehl, por sua vez, aponta como esse modo de vida produz sofrimento psíquico e transforma a exaustão em um sintoma social da contemporaneidade. O descanso passa a ser visto como improdutividade, enquanto o fracasso é frequentemente interpretado como responsabilidade individual. Nesse contexto, o sujeito contemporâneo é convocado a funcionar o tempo todo.

 

No entanto, essa lógica não incide sobre sujeitos neutros. Mulheres historicamente ocupam o lugar do cuidado, da manutenção da vida e da gestão emocional das relações. A teórica Heleieth Saffioti demonstra que essa desigualdade não é apenas cultural, mas estrutural, sustentada pela articulação entre patriarcado e capitalismo. Silvia Federici também evidencia como o trabalho reprodutivo e de cuidado, realizado majoritariamente por mulheres, permanece invisível e desvalorizado, apesar de ser fundamental para a manutenção da vida social. Mesmo após sua inserção massiva no mercado de trabalho, essas responsabilidades não desapareceram. Elas apenas se acumularam.

 

A sobrecarga feminina não está apenas na quantidade de tarefas executadas, mas também no trabalho invisível que sustenta o cotidiano: lembrar, organizar, antecipar, acolher, evitar conflitos e manter vínculos funcionando. Trata-se de um trabalho emocional frequentemente naturalizado e pouco reconhecido.

 

Na clínica, isso aparece como culpa, perfeccionismo e sensação constante de insuficiência. Enquanto isso, Rosalind Gill contribui para compreender como a autoexigência contemporânea é internalizada, fazendo com que mulheres se tornem constantemente vigilantes de si mesmas. Joan Rivière já apontava, na psicanálise, como a feminilidade pode operar como uma performance marcada pela necessidade de adaptação e validação. Muitas mulheres relatam exaustão acompanhada da impressão de que ainda deveriam conseguir fazer mais. O sofrimento não surge apenas do excesso de demandas, mas também da impossibilidade subjetiva de se autorizar a parar.

 

Além disso, relações afetivas podem se tornar mais um espaço de desgaste. A bell hooks discute como mulheres são frequentemente socializadas para sustentar emocionalmente os vínculos, assumindo o trabalho emocional das relações. Ademais, precisamos ampliar essa discussão ao problematizar a responsabilização histórica das mulheres pelo cuidado e pela manutenção da vida afetiva e familiar. Mulheres frequentemente assumem a função de sustentação emocional dos vínculos, tornando-se responsáveis pela escuta, mediação de conflitos e manutenção da estabilidade relacional.

 

Nesse cenário, o burnout não pode ser reduzido a um problema individual ou a uma falha de adaptação. Ele também expressa os limites de uma organização social que distribui de forma desigual o trabalho, o cuidado e a responsabilidade emocional.

 

Talvez seja justamente isso que o burnout revela: não apenas corpos cansados, mas formas de vida que se tornaram insustentáveis.

 

Você se identificou com esses sentimentos de culpa, cansaço e sobrecarga? Bom, você não está sozinha, venha falar sobre isso e reescrever uma vida possível e com sentido para VOCÊ!

 

Abraço,

Milena Schmitt Moura,

Psicologa clínica e social | CRP 07/41927

 

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