
A dor de perder alguém importante aparece com frequência na clínica. Nos términos ou rompimentos afetivos, o sofrimento raramente se apresenta apenas como uma simples tristeza; vai muito além deste sentimento. A maioria das pessoas se depara com a ansiedade ao se enxergar "sozinha", porque sente que fracassou, mesmo tendo investido muito na relação.
Quando se trata de investimento, fala-se de tempo, dinheiro, amor e outros aspectos. Há um certo descontrole psiquico nesse momento, uma desordem que causa muito estresse, pois os pensamentos não cessam. Existe muita necessidade de revisar cada detalhe da história vivida, o que acaba gerando medo e um vazio diante do futuro sem o amado (a).
O sofrimento sentido ainda não é entendido como um luto, mas ele está ali, atravessando o corpo, tirando o sono, desorganizando a rotina e produzindo uma inquietação constante.
Quando uma relação termina, não se perde apenas a pessoa amada. Perde-se o projeto construído a dois, a rotina compartilhada, os planos que davam direção ao futuro. Perde-se também a versão de si que existia naquele vínculo. Há algo de profundamente desestruturante em deixar de ocupar o lugar onde nos reconhecíamos. O término amoroso toca não só no outro, mas na própria identidade.
O rompimento diz algo da queda da fantasia. A fantasia da continuidade, da reparação, da perfeição, da transformação do outro, de estabilidade emocional sustentada pela relação. E, quando essa fantasia acaba, nós nos vemos diante da própra falta. É nesse ponto que a ansiedade costuma se itensificar: na tentativa de restabelecer o que foi perdido, de recuperar o controle, de evitar o contato com a dor da ausência.
O trabalho da psicanálise, nesse contexto, não busca apagar o sofrimento nem oferecer respostas rápidas. É oferecido um espaço onde essa dor pode e precisa ser escutada, simbolizada e elaborada. Elaborar um término não é esquecer alguém, é reposicionar essa história dentro de si.
Buscar ajuda terapêutica no término de uma relação, não é um sinal de fraqueza, mas de responsabilidade afetiva consigo. É escolher não atravessar a falta no silêncio, nem deixar que a ansiedade dite os próximos passos. Na terapia, a dor encontra palavras e sentido para elas. O vazio encontra contorno, e, a historia, um lugar. Porque, quando uma relação termina, algo se rompe, mas também pode começar um processo de reconstrução mais consciente e verdadeiro dentro de si.
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FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). In: ______. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
COSTA, Jurandir Freire. Sem fraude nem favor: estudos sobre o amor romântico. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Josiane Pacheco Ribeiro Chaves
Psicóloga CRP: 05/63997
@josianechaves.psi
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