
Uma das passagens mais significativas que já encontrei em Jung:
- Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhe gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer realmente quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas é ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la. Por isso podemos aprender muita coisa da doença para a nossa saúde e que aquilo que parece ao neurótico absolutamente dispensável, contém precisamente o verdadeiro ouro que não encontramos em outra parte. (Civilização em Transição, § 361).
Como podem ver, segundo Carl Jung, a neurose não deve ser entendida apenas como um defeito a ser eliminado, mas como um fato psíquico que pode servir como nosso professor; isto é, algo que tem função e direção. Em vez de representar uma simples perda de normalidade, o sintoma pode expressar um conflito entre a organização consciente da personalidade e conteúdos psíquicos não integrados. O sintoma seria, portanto, um desconforto que nos aponta a necessidade de desenvolvimento; se aproveitarmos a oportunidade, o sofrimento psíquico acabará sendo visto como uma espécie de dor de crescimento pela qual tivemos que passar.
Nesse sentido, a “cura” não consiste em retornar a um estado anterior, mas em transformar a estrutura do eu. O sofrimento neurótico frequentemente marca o colapso de uma adaptação psíquica estreita ou artificial, forçando um amadurecimento que passa pelo reconhecimento de aspectos negligenciados da vida. Assim, a resolução do sintoma implica integração e ampliação da consciência, e não regressão a um funcionamento anterior.
Clinicamente, essa mudança de perspectiva altera a postura diante do sofrimento: o foco deixa de ser apenas a eliminação do sintoma e passa a incluir a compreensão de sua função psíquica. Em síntese, com isso deixamos de perguntar apenas “como faço isso desaparecer?” e passamos a perguntar “o que isso está tentando me mostrar?”. Vale a pena repetir a conclusão de Jung: a neurose não é curada; é ela que nos cura.
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