top of page

Psicoterapia e Laços Sociais após a Operação Policial no Rio

Quando o Sofrimento é Coletivo

4 de nov. de 2025

Geovanna Moreira Bastos

Saúde mental
Terappia Logo

Vivemos tempos em que a vida nas favelas e periferias do Rio de Janeiro se dá sob a sombra da violência, do medo e da precariedade — e a operação policial realizada em 28 de outubro de 2025, em que mais de 2.500 agentes foram mobilizados e dezenas de pessoas morreram, reforça essa realidade. Neste cenário, muitos jovens que vivem nesses territórios enfrentam não apenas o risco físico, mas também os efeitos subjetivos — traumas, silenciamentos, vínculos fragilizados — que resultam desse tipo de intervenção drástica.Quando falamos em sofrimento psíquico nesses contextos, não estamos falando apenas de ansiedade ou tristeza “normais”: trata-se de efeitos que decorrem de viver em territórios onde as instituições falham, onde a violência política ou policial torna-se cotidiana, e onde os laços sociais — as amizades, os vínculos familiares, a confiança comunitária — podem se romper ou se enfraquecer. Para muitos jovens periféricos, as condições de existência são precárias e marcadas por políticas que deixam a desejar, o que aumenta o risco de silenciamento e de sofrer “sozinho”.É aí que entra a proposta da escuta psicanalítica — não só como técnica individual, mas como dispositivo que considera o coletivo, o território, o laço social.

No projeto Tá na Roda: intervenções clínico‑políticas em espaços educacionais, realizado em pré-vestibular comunitário com cerca de 70 jovens moradores da favela, foi implementada uma roda semanal de escuta, onde a palavra circulava livremente, e o coletivo se tornava lugar de cuidado e reconhecimento.Por meio dessa metodologia, os jovens puderam trazer à roda aquilo que normalmente seria silenciado: o medo, a ameaça, o que se viveu ou presenciou em operações policiais ou situações de forte tensão. No contexto da operação de outubro de 2025, imaginar o impacto sobre esses jovens é imaginar pulverização do sentido de segurança, presença da morte ou da ameaça da morte, e uma dificuldade enorme para processar essas experiências se estiverem isolados.

A grande contribuição dessa abordagem está em fortalecer os laços sociais: ao falar juntos, ouvir e ser ouvido, os jovens se reconhecem não apenas como vítimas ou sobreviventes, mas como sujeitos com história, dor, desejo, esperança. Esse reconhecimento é uma via de cuidado que vai além do “tratamento individual” e alcança a dimensão comunitária.Além disso, ao colocar em xeque narrativas hegemônicas — por exemplo, a naturalização da violência nas periferias, a ideia de que “é assim mesmo”, a ideia de que os jovens devem dar conta sozinhos — a roda cria um espaço de construção de sentido, de questionamento daquilo que é imposto, e de afirmação de que ali há “vidas que importam”, vínculos que importam.

Diante da operação policial em outubro, a escuta coletiva adquire ainda mais relevância. Quando um território se transforma num palco de confronto — como os complexos do Alemão e da Penha, onde a intervenção foi considerada a mais letal da história do estado do Rio de Janeiro. Os jovens que vivem nessas áreas não podem simplesmente apagar ou esconder essas experiências. É preciso um espaço que permita trazer a palavra, partilhar o que se sentiu, o que viu, o que teme.Para quem está buscando psicoterapia — seja pessoalmente, seja para seus filhos, ou como profissional que trabalha com jovens — há aqui algumas pistas práticas: escolha um espaço que reconheça o contexto sociopolítico, que leve em conta não só o sintoma individual mas o laço social; valorize abordagens que permitam o coletivo, ou pelo menos que não reduzam o sofrimento a “problema individual” e ignorem o contexto da violência; verifique se há atenção aos vínculos sociais, à comunidade, ao reconhecimento que aquele jovem não está sozinho.

Por fim, devemos lembrar que crises como essa operação policial — que deixam marcas tanto visíveis quanto invisíveis — podem ser aproveitadas como ponto de virada: a escuta coletiva pode servir como dispositivo de cuidado, de fortalecimento, de construção de novos laços, de reconhecimento de histórias que, até então, ficaram silenciosas. O trauma ou o medo não precisam se tornar destino — podem se tornar mobilização, entre-laços, possibilidade de existência diferente.Se você está lendo isso porque sente que algo em você ou num jovem de sua convivência “não está bem”, ou porque há algo que se calou, saiba: buscar um espaço de escuta que reconhece sua história, seu contexto, sua comunidade, é um passo valioso. E, em territórios marcados pela violência institucional ou policial, esse gesto de falar e ser ouvido pode começar a reconstruir aquilo que se perdeu — o laço, a esperança, a voz.

 

 

 

Geovanna Moreira Bastos | Psicóloga e psicanalista - CRP 01/30116

Meu perfil no Terappia: www.terappia.com.br/psi/Geovanna-Moreira-Bastos

 

 

 

 

 

 

#terapia #psicologia #psicoterapia #trauma #violencia #conflito armado

Últimas publicações desse Terappeuta

bottom of page